O carinho e o segredo da culinária crioula transmitidos entre gerações.
Na Ilha de São Nicolau, as cozinhas têm um sotaque próprio. É o som do milho a ser pisado no pilão, o estalar da lenha no fogão de terra e o murmúrio das conversas que correm ao ritmo do café que ferve logo pela manhã. Na vila de Ribeira Brava, nenhuma cozinha era tão concorrida ou exalava um aroma tão reconfortante como a da Avó Chica.
Avó Chica era uma mulher miúda, de passos ágeis e mãos que pareciam ter magia própria. No próximo sábado, a vila iria celebrar uma das maiores festas de casamento do ano, e todos sabiam que uma festa em São Nicolau não estava completa sem os famosos pastéis de milho da Avó Chica — uma iguaria frita, crocante por fora e recheada com peixe fresco bem temperado.
A cozinha estava num ritmo frenético. Pratos de barro cheios de cebola picada, malagueta, alho e coentros cobriam a grande mesa de madeira. No centro de toda a azáfama estava a jovem Mariana, de dezassete anos, que tentava a todo o custo acertar a consistência da massa de milho sob o olhar atento da avó.
— Falta-lhe carinho nessa massa, Mariana — dizia a Avó Chica, enquanto mexia uma panela gigante onde o peixe cozia lentamente. — A massa de milho sente se o teu pensamento está longe. Tens de a moldar como se estivesses a ninar um bebé.
Mariana suspirou, limpando a testa com o avental. Os seus braços já doíam de tanto amassar a mistura de farinha de milho escaldada com água quente.
— Avó, eu estou a seguir a receita exatamente como a tia me deu! — queixou-se a jovem, olhando para os rolos de massa que teimavam em abrir-se nas pontas. — Mas os teus pastéis ficam sempre dourados, inteiros e com um sabor que ninguém na ilha consegue imitar. Qual é o verdadeiro segredo que a avó não conta a ninguém?
A Avó Chica largou a colher de pau, caminhou devagar até à mesa e sentou-se ao lado da neta. Pegou num pequeno pedaço da massa que Mariana tinha preparado, rolou-o entre as palmas das mãos com uma facilidade impressionante e, numa questão de segundos, moldou um pastel perfeito, em forma de meia-lua, pronto para receber o recheio.
— O segredo não está na quantidade de alho ou no tipo de peixe, minha filha — disse a velha senhora, com um sorriso sábio no rosto. — O segredo do pastel de milho é a partilha. Quando eu era jovem, nesta mesma ilha, passámos por tempos em que o milho era pouco e o peixe faltava nas redes. Mas quando uma vizinha conseguia um punhado de farinha, juntávamo-nos todas na mesma cozinha. Fazíamos a massa crescer com as nossas histórias, com as nossas risadas e com a força de estarmos juntas.
Mariana ouvia com atenção, esquecendo por momentos o cansaço dos braços.
— O pastel só fica bom — continuou a Avó Chica — porque ele é feito para ser oferecido. Se fizeres a massa a pensar no trabalho que dá, ela fica dura. Mas se a fizeres a pensar na alegria das pessoas no dia da festa, na música que vão dançar e no abraço que vais dar aos noivos, a massa fica leve. O ingrediente secreto da nossa terra, Mariana, é a união.
A jovem olhou para as mãos calejadas da avó e depois para as suas próprias mãos. Fechou os olhos por um segundo, respirou fundo o aroma a coentros e a mar que inundava a divisão, e voltou a pegar na massa. Desta vez, os seus movimentos foram diferentes: mais calmos, mais ritmados, quase como se estivessem a acompanhar os acordes de uma coladeira.
Para surpresa de Mariana, a massa cedeu. Tornou-se moldável, macia e perfeita. Um a um, os pastéis começaram a alinhar-se no tabuleiro, prontos para o óleo quente que já estalava no fogão.
Ao final da tarde, a cozinha da Avó Chica estava silenciosa, mas os tabuleiros estavam cheios de montanhas de pastéis dourados e perfumados. A Avó Chica olhou para o trabalho da neta, pegou num pastel ainda morno e entregou-lho.
Mariana deu uma trinca. A crosta estalou perfeitamente, revelando o recheio suculento e reconfortante. Olhou para a avó com os olhos a brilhar. O segredo tinha sido transmitido, e a tradição de São Nicolau estava guardada em boas mãos.
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