Os segredos medicinais e a seiva do Dragoeiro de São Nicolau.
O Monte Gordo, em São Nicolau, é um guardião adormecido sob um manto de nevoeiro constante. Ali, entre caminhos de terra escura, crescem ervas que não existem em mais nenhum lugar do mundo. Nhá Rosa, a última guardiã da medicina antiga, está prestes a enfrentar uma febre misteriosa que desceu sobre o vale, e a resposta pode estar no ‘sangue’ de uma árvore milenar.
O Sussurro Verde do Monte
Para quem olha de longe, o Monte Gordo parece um guardião adormecido que veste uma capa de nevoeiro constante. Na Ilha de São Nicolau, esta montanha não é apenas o ponto mais alto; é o coração verde da ilha, um lugar onde a humidade da brisa atlântica se condensa nas folhas das plantas, criando um microclima místico. Ali, entre os caminhos de terra escura, crescem ervas que não se encontram em mais nenhum lugar do mundo.
Nhá Rosa conhecia o nome de cada folha, o gosto de cada raiz e a hora exata em que a seiva subia pelos caules. Vivia numa pequena casa de pedra na encosta, rodeada por feixes de losna, alecrim-de-santo e cidreira a secar ao sol. Aos oitenta anos, os seus olhos ainda guardavam a vivacidade de quem via a magia nas coisas mais simples da terra. Para as gentes de Ribeira Brava e do Tarrafal de São Nicolau, ela era a última guardiã da medicina antiga.
“A terra dá o remédio antes de dar a doença”, costumava dizer Rosa enquanto pisava raízes num almofariz de pedra vulcânica. “O problema é que as pessoas desaprenderam de ouvir o que o mato diz.” Rosa não usava livros; o seu conhecimento tinha sido herdado da avó, que por sua vez o recebera dos antigos que primeiro povoaram aquelas ribeiras sinuosas.
A Febre do Vale
No início do ano, uma maleita estranha e silenciosa desceu sobre o vale da Ribeira Brava. Não escolhia idades: começava com um cansaço pesado nos olhos e, em poucas horas, transformava-se numa febre ardente que fazia os doentes delirarem com imagens de mares secos e barcos de areia. Os remédios da farmácia da vila pareciam água fria contra o calor que queimava por dentro.
Preocupada, a comunidade recorreu a Nhá Rosa. A velha curandeira desceu à vila com o seu xaile escuro e a sua bolsa de lona cheia de preparados. Passou de casa em casa, tocando nas testas a ferver e sussurrando rezas antigas. No entanto, ao fim de três dias, até as suas infusões mais fortes apenas conseguiam abrandar a febre por algumas horas. A doença era persistente e parecia alimentar-se da própria humidade do ar.
Naquela noite, Rosa regressou à sua casa no Monte Gordo com o coração pesado. Sentou-se no pátio e olhou para o topo da montanha, onde o nevoeiro estava mais denso do que nunca. Sabia que a resposta não estava nas ervas comuns que colhia no quintal. Era preciso pedir ajuda à árvore mais antiga da ilha: o velho Dragoeiro que crescia isolado numa ravina profunda, cujo tronco guardava a seiva vermelha que os antigos chamavam de “sangue de dragão”.
O Pacto com o Dragoeiro
A caminhada até à ravina foi dura. Sob a luz fraca de uma lanterna de querosene e com o vento a fustigar as ramagens, Rosa subiu os trilhos íngremes até chegar junto da árvore monumental. O Dragoeiro erguia os seus ramos nus para o céu como se fossem braços que desafiavam o tempo. Tinha centenas de anos e a sua casca estava cheia de rugas profundas, semelhantes às da própria pele de Rosa.
A curandeira ajoelhou-se entre as raízes expostas e encostou a testa ao tronco robusto. Fechou os olhos e começou a cantar uma ladainha antiga em crioulo, uma melodia que a sua avó cantava quando a ilha sofria com as grandes secas. Pedia licença para tirar uma gota da força da árvore para salvar a gente do vale.
“A seiva cura quem respeita a raiz”, pareceu ecoar nas folhas crespas da árvore, num som que se misturava com o sussurro do vento de Leste.
Com todo o cuidado, Rosa fez uma pequena incisão na casca gasta. De imediato, uma gota espessa e de um vermelho vivo começou a brotar. A curandeira recolheu o líquido precioso num pequeno frasco de vidro, agradeceu à árvore com um punhado de terra fresca sobre as raízes e iniciou a descida antes que o sol nascesse.
A Cura que Veio da Montanha
De volta à Ribeira Brava, Rosa misturou a seiva vermelha do Dragoeiro numa grande panela de ferro onde fervia água de nascente com folhas de losna brava. O fumo que subia da mistura tinha um aroma silvestre e revigorante, que parecia limpar o ar pesado do quarto dos doentes.
Administrada às colheres, a infusão operou o milagre que a vila tanto esperava. À medida que o líquido vermelho entrava no corpo dos enfermos, a pele arrefecia e a respiração tornava-se calma. Ao fim do dia, os primeiros rapazes já se sentavam à porta de casa, fracos mas com os olhos limpos da névoa da doença.
A Ribeira Brava celebrou a cura com música e festa, mas Nhá Rosa não ficou para os agradecimentos. Regressou ao silêncio do seu Monte Gordo, onde as plantas continuavam a crescer ao ritmo do nevoeiro. Sabia que a sua missão estava cumprida e que, enquanto o velho Dragoeiro estivesse de pé no cimo de São Nicolau, a ilha teria sempre uma defesa contra os males do mundo.
💡 Ficha Técnica e Curiosidades
- O Monte Gordo: É o ponto mais alto da Ilha de São Nicolau, com 1.312 metros de altitude. Está classificado como Parque Natural devido à sua rica biodiversidade, albergando várias espécies de plantas endémicas que dependem do nevoeiro para sobreviver.
- O Dragoeiro (Dracaena draco): É uma árvore mística e icónica da Macaronésia. A sua seiva, que se torna vermelha em contacto com o ar, foi historicamente utilizada na medicina tradicional, na tinturaria e até no fabrico de vernizes para instrumentos musicais devido às suas propriedades únicas.
- Medicina Tradicional: Em São Nicolau, tal como em muitas outras ilhas de Cabo Verde, a figura dos curandeiros e o uso de “chás de terra” mantêm uma forte ligação cultural, sendo um conhecimento transmitido oralmente que complementa a medicina convencional.
A cura que vem da montanha é o lembrete de que a terra cuida de quem a conhece. Para entender os segredos que Nhá Rosa sussurra às plantas, é preciso falar a língua da terra.
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