A força ancestral e o ritmo do Batuku em Santiago.
O Terreiro da Memória
No interior da Ilha de Santiago, longe do bulício da capital, a terra tem uma cor castanha e forte que se agarra às botas de quem caminha pelos vales de Santa Catarina. É ali, entre os campos de milho e os embondeiros majestosos, que a tradição mais antiga de Cabo Verde se mantém viva na sua forma mais pura: o Batuku. Não precisa de palcos iluminados ou de instrumentos eletrónicos; basta um círculo de mulheres, uma cabaça com água, um pano enrolado entre as coxas — a toka — e o poder da voz.
Vanessa, de vinte e dois anos, observava o círculo a partir da sombra de uma latada de videira. As batucadeiras, a maioria delas mulheres idosas com rostos sulcados pelo tempo e pela sabedoria, batiam o ritmo no daiku com uma energia que desafiava a idade. O compasso era rápido, seco e contagiante, servindo de base para que uma delas entoasse o verso, a letra improvisada que contava as histórias da comunidade, as dores do dia a dia e as vitórias do povo.
A jovem trazia no peito uma angústia recente. Tinha terminado os estudos na Praia e sentia-se dividida entre a pressão de emigrar para a Europa e o desejo profundo de permanecer ligada às suas raízes na ilha. Sentia-se perdida, como se a sua identidade estivesse a flutuar sem âncora no meio do oceano.
O Convite de Nhá Balbina
Nhá Balbina, a líder do grupo e a batucadeira mais respeitada da zona, parou de bater por um momento. Os seus olhos cinzentos e perspicazes cruzaram-se com os de Vanessa. Com um aceno de cabeça firme, apontou para um banco de madeira vazio que restava no círculo das mulheres.
“Uma filha de Santiago não fica na sombra quando o terreiro chama”, disse Nhá Balbina, com uma voz que tinha a autoridade das montanhas da Assomada. “Vem sentar-te. A terra precisa de mãos novas para fazer o chão falar.”
Com as pernas a tremer ligeiramente, Vanessa aproximou-se. Uma das mulheres estendeu-lhe um pano de algodão grosso dobrado. Vanessa colocou-o entre as pernas, imitando a postura das mais velhas, e pousou as palmas das mãos na superfície rija. No início, o seu toque foi tímido e fora de tempo. O som saía abafado, incapaz de acompanhar a cadência forte que as outras mulheres mantinham com precisão matemática.
O Torno que Liberta a Dor
À medida que o ritmo acelerava, entrando na fase do torno — o momento em que uma das jovens entra no centro do círculo para dançar com movimentos rápidos e rítmicos das ancas —, Nhá Balbina começou a cantar um verso direcionado à jovem. A sua voz falava sobre a partida, sobre o medo do desconhecido e sobre a força das mães que criavam os filhos sozinhas nas ribeiras.
O canto bateu no peito de Vanessa como um relâmpago. Ela fechou os olhos e, de repente, as suas mãos deixaram de ser apenas suas. O compasso do Batuku fundiu-se com o bater do seu próprio coração. A pressa e a insegurança desapareceram, dando lugar a uma força ancestral que subia do chão de terra batida através das suas pernas. As suas palmas atingiram a toka com um estalo limpo e poderoso, encaixando-se perfeitamente no contratempo do grupo.
“A raiz que apanha a água do fundo não cai com o vento da maré”, ecoou o coro das batucadeiras, respondendo ao verso de Nhá Balbina numa harmonia vocal que arrepiou os braços da rapariga.
Vanessa sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos, mas não eram lágrimas de tristeza. Era uma sensação de libertação. Pela primeira vez em meses, a dúvida desapareceu. Ela compreendeu que, independentemente do caminho que escolhesse no futuro — ficasse na ilha ou partisse para o mundo —, a força daquelas mulheres e a história do seu povo estariam sempre gravadas no seu próprio corpo. Ela tinha uma âncora.
O Eco do Terreiro
O ensaio terminou quando o sol se escondeu atrás dos picos da Serra da Malagueta, pintando o céu com tons de brasa e cinza. As mulheres levantaram-se, guardando os panos e conversando com a alegria habitual. Nhá Balbina aproximou-se de Vanessa e pousou uma mão pesada e calorosa no ombro da jovem.
“Hoje aprendeste a falar a nossa língua mais antiga”, disse a anciã com um sorriso discreto. “Agora, onde quer que vás, o chão vai responder ao teu passo.”
Vanessa agradeceu com um abraço apertado. Caminhou de volta para casa sob as estrelas que começavam a acender-se no céu de Santiago. Nos seus ouvidos, o ritmo do Batuku continuava a ressoar, claro e indomável, lembrando-lhe de que a sua história estava apenas a começar e que a sua raiz era forte demais para ser esquecida.
💡 Ficha Técnica e Curiosidades
- O Batuku (Batuque): É um dos géneros musicais e de dança mais antigos de Cabo Verde, considerado Património Cultural Imaterial Nacional. Nascido na Ilha de Santiago durante o período da escravatura, funcionava como uma forma de resistência cultural e de expressão social das mulheres africanas.
- A Estrutura do Batuku: É executado tradicionalmente por um grupo de mulheres chamadas batucadeiras. Divide-se em duas partes principais: a galope, onde se canta o verso e o coro, e o torno, um momento de clímax rítmico onde uma dançarina executa movimentos virtuosos no centro do círculo ao ritmo acelerado das batidas.
- Santa Catarina (Assomada): Esta região no interior da Ilha de Santiago é um dos principais berços da cultura tradicional cabo-verdiana, famosa pelas suas feiras vibrantes, pela agricultura e por manter vivas as manifestações populares que ligam o arquipélago à sua ancestralidade continental.





