Voginha pertence à linhagem dos músicos que não precisam de ruído para se afirmar. No violão de José Carlos Silva Brito, cada nota é colocada com a precisão de quem conhece o peso e o silêncio da tradição. Lançado nas plataformas digitais no final de 2025, o álbum “Origem da Morna” teve a sua apresentação na Povoação Velha a 24 de setembro de 2026, num regresso do artista às suas raízes. O trabalho sintetiza mais de quarenta anos dedicados à linguagem das cordas em Cabo Verde.

A história começou longe dos holofotes. Na Povoação Velha, na ilha da Boa Vista, a infância teve o ritmo próprio do interior. Aos dez anos, já em São Vicente, encontrou o violão deixado em casa pelo pai, o mestre Tazinho, que emigrara anos antes. Sem mestre por perto, aprendeu a tocar sozinho, às escondidas, descobrindo as posições nas seis cordas com a paciência de quem desvenda um mapa.
Essa aprendizagem solitária moldou um estilo em que nada sobra. Vencedor do prestigiado Concurso de Solos Luís Rendall em 1988, Voginha herdou a técnica e a alma dos velhos mestres das cordas, mas recusou limitar-se à repetição. Ao longo dos anos, cruzou a tradição acústica das ilhas com harmonias e frases do jazz, assumindo-se como um verdadeiro guardião da morna — hoje Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Ao longo do seu percurso, o seu nome ficou ligado a momentos marcantes da culture nacional: integrou a Mindel Band que acompanhou Cesária Évora, assinou parcerias históricas em duo com Vasco Martins (Reflexos d’Acácia, Dôs) e com Bau (Relembrando os Mestres, Anthologia Acústica), e participou em projetos de artes cénicas e dança contemporânea.
Agora, com “Origem da Morna”, o músico regressa ao formato solo para desenhar a travessia do género por três ilhas fundamentais: da cadência acelerada e saltitante da Boa Vista, passando pela lentidão emotiva da Brava, até à consolidação urbana em São Vicente. Mais do que um disco, é o reflexo natural de uma vida inteira dedicada às seis cordas e à memória viva do arquipélago.





