O ritmo do Sanjon nas fogueiras de Porto Novo.
O Chamado da Pele e da Madeira
Quando o mês de junho chega ao fim, a cidade de Porto Novo, no sul da Ilha de Santo Antão, transforma-se num palco de chamas e ritmo. É a festa de São João Baptista, o Sanjon, uma celebração que arrasta multidões numa maré de fé, música e poeira. As ruas enchem-se com o fumo das fogueiras que saltam pelos caminhos e, acima de tudo, com o som telúrico e hipnótico dos tambores. É um compasso que parece nascer das próprias entranhas das montanhas rochosas da ilha.
Nelson, com apenas dezoito anos, segurava o tambor do falecido avô com um respeito que roçava o medo. O instrumento era uma relíquia familiar: o corpo esculpido num tronco oco de cedro e a pele de cabra esticada por cordas grossas e cunhas de madeira gasta. Ao contrário dos seus amigos, que preferiam as colunas de som modernas com ritmos urbanos, Nelson queria ser tamboreiro. Ele queria o som puro, aquele que fazia o chão tremer e obrigava as pessoas a dançar a coladeira tradicional.
“Não batas na pele como se estivesses a castigar a cabra”, dizia-lhe o tio, um dos tocadores mais velhos do concelho. “O segredo do tambor está na conversa. Tens de puxar o som de dentro da madeira, não podes apenas empurrá-lo com os dedos.” Nelson praticava até as palmas das mãos ficarem vermelhas e calejadas, mas sentia que o ritmo ainda lhe escapava, como se faltasse um ingrediente secreto à sua batida.
A Noite do Fogo e do Compasso
Na noite da véspera da grande romaria, Porto Novo estava em chamas festivas. Grandes pirâmides de lenha estalavam nas esquinas, atirando faíscas douradas para o céu escuro da noite. O cheiro a rosmaninho e a comida tradicional enchia o ar. Grupos de tamboreiros caminhavam em fila, rodeados pelas coladeiras — as mulheres que respondiam ao compasso com o movimento das ancas e com cantos entoados em coro.
Nelson juntou-se ao grupo na praça principal. Quando o sinal foi dado, os tambores começaram a rugir em uníssono. O som era ensurdecedor, uma parede de ritmo que fazia vibrar os peitos de todos os presentes. Nelson tentou acompanhar a cadência, mas a pressa e o nervosismo traíram-no. As suas batidas saíam ligeiramente desalinhadas, quebrando o fluxo invisível que unia os tocadores antigos. Sentiu os olhares de desaprovação e o calor da vergonha subiu-lhe às faces, superando o calor da fogueira mais próxima.
Desanimado, afastou-se da multidão e caminhou em direção à periferia da cidade, onde as luzes eram mais fracas e o barulho da festa chegava suavizado pela distância. Sentou-se numa pedra à beira do caminho de terra batida que subia para a Ribeira das Patas, com o tambor apoiado nos joelhos.
O Espírito do Sanjon
Enquanto olhava para o reflexo das fogueiras lá em baixo, uma figura idosa surgiu da escuridão do trilho. Vestia uma camisa de linho branco e trazia um pequeno ramo de rosmaninho na mão. Os seus olhos brilhavam com uma sabedoria antiga, e o rapaz teve a nítida impressão de já ter visto aquele rosto nas fotografias amareladas que a avó guardava na sala de casa.
O velho não disse uma palavra. Aproximou-se de Nelson, pegou no ramo de rosmaninho e passou-o suavemente sobre a pele de cabra do tambor, libertando um aroma fresco e silvestre. Depois, com a ponta dos dedos secos, deu três batidas rápidas no centro do instrumento. O som que saiu dali foi diferente de tudo o que Nelson já ouvira: não era alto, mas era tão profundo que pareceu fazer eco nas montanhas distantes de Santo Antão.
“O tambor não canta sozinho, Nelson”, sussurrou a voz do ancião, que parecia o estalar da lenha na fogueira. “Ele precisa do teu sangue e da memória dos teus que já pisaram este chão. Fecha os olhos e deixa que a ilha toque por ti.”
Nelson fechou os olhos. Quando os abriu segundos depois, o velho tinha desaparecido na névoa da noite, restando apenas o perfume do rosmaninho no ar. O rapaz respirou fundo, ajustou a alça do tambor ao ombro e começou a tocar. Desta vez, não pensou nas regras ou na técnica. Deixou que a energia das festas, o orgulho de pertencer àquelas montanhas e a saudade do avô guiassem as suas mãos. O ritmo fluiu perfeito, num compasso ancestral e poderoso.
O Eco da Tradição
Nelson regressou à praça central a tocar. À medida que se aproximava, os outros tamboreiros pararam para o ouvir. A sua batida tinha uma força nova, uma cadência que arrastava as coladeiras num frenesim que a cidade há muito não via. O tio olhou para ele com os olhos húmidos de orgulho e acenou com a cabeça: o rapaz tinha encontrado o segredo.
A festa continuou até ao amanhecer, com as fogueiras a transformarem-se em cinzas brancas e o sol a iluminar os picos imponentes de Santo Antão. Nelson tinha as mãos doridas, mas a alma estava cheia. Ele sabia que a partir daquela noite, o tambor do avô nunca mais ficaria calado na parede. A tradição do Sanjon tinha encontrado um novo guardião, e o compasso da ilha continuaria a ecoar por muitas gerações.
💡 Ficha Técnica e Curiosidades
- As Festas de São João em Porto Novo: São uma das maiores manifestações culturais e religiosas de Cabo Verde. Realizadas anualmente em junho, misturam a liturgia católica em honra a São João Baptista com rituais pagãos e populares de origem africana e europeia, como o salto à fogueira e as danças de coladeira.
- Os Tamboreiros e as Coladeiras: São as figuras centrais da festa. Os tamboreiros marcam o ritmo compassado utilizando instrumentos artesanais, enquanto as coladeiras (geralmente mulheres) dançam e cantam versos improvisados ou tradicionais que animam o percurso da romaria.
- A Ilha de Santo Antão: Conhecida pelas suas montanhas grandiosas, vales profundos e ribeiras férteis no norte, contrasta com a aridez do sul em Porto Novo. É uma ilha rica em tradições orais, artesanato e na produção do famoso grogue artesanal.


