Considerado por muitos o maior trovador e compositor de Cabo Verde a seguir a B. Léza, Manel d’Novas (Manuel de Jesus Lopes) é a voz poética da emigração, do mar e da boémia do Mindelo. Através das suas mornas profundas e coladeiras mordazes e bem-humoradas, ele traçou um retrato sociológico inigualável da alma cabo-verdiana.
Ficha Técnica do Artista

- Nome de Nascimento: Manuel de Jesus Lopes
- Data de Nascimento: 24 de Fevereiro de 1938
- Data de Falecimento: 28 de Setembro de 2009 (71 anos)
- Naturalidade: Penha de França, Ribeira Grande, Ilha de Santo Antão, Cabo Verde
- Géneros Principais: Morna, Coladeira
- Instrumentos: Violão (Guitarra Clássica), Composição
Biografia e Percurso Musical
De Santo Antão para o Mar
Embora tenha nascido na montanhosa ilha de Santo Antão, Manuel de Jesus Lopes mudou-se para a ilha de São Vicente aos 12 anos. Foi lá que a sua ligação ao mar se tornou definitiva. Na juventude, começou a trabalhar na marinha mercantil a bordo do navio Novas de Alegria — embarcação que lhe valeu a célebre alcunha de Manel d’Novas.
Foi a navegar na rota Mindelo-Dacar que o jovem marinheiro aprendeu de forma autodidata a tocar violão com os seus colegas e começou a escrever os seus primeiros versos, alimentados pelo isolamento e pela saudade.
O Cronista do Monte Sossego e o Piloto de Barra
Após regressar a terra firme, Manel d’Novas tirou o curso da Escola Náutica e trabalhou como piloto de barra e piloto dos estaleiros navais da Cabnave, no Mindelo.
Instalado no carismático bairro de Monte Sossego, o músico transformou a sua vivência diária numa infindável fonte de canções. Atento a cada pormenor, tornou-se o observador crítico por excelência da sociedade mindelense, escrevendo letras recheadas de sátira social, mas também de uma doçura profunda ao falar do sofrimento da partida e do regresso.
O Legado e a Poesia da “Sodade”
“Quem ca conchê Mindelo, ca conché Cabo-Verde.” > — Manel d’Novas (Frase mítica imortalizada nas suas composições)
A genialidade de Manel d’Novas reside na facilidade com que transitava entre a melancolia extrema da morna de despedida e a vivacidade rítmica da coladeira de intervenção social. Ele foi o compositor predileto de lendas como Cesária Évora (que gravou clássicos seus como “Vida Tem Um Só Vida”, “Barbincor” e “Ess Pais”) e Bana, cuja voz deu asas à sua primeira composição gravada nos anos 60, “Serpentinha”.
A riqueza literária da sua escrita em crioulo é hoje reconhecida internacionalmente, fazendo dele um dos maiores poetas populares do arquipélago.
Composições e Sucessos de Destaque
Ao longo da sua vida, escreveu mais de 120 canções. Embora não tenha focado a sua carreira em gravar discos próprios como intérprete principal, as suas composições tornaram-se hinos na voz de outros artistas:
- “Stranger ê um Ilusão” (Morna – Interpretada por Cesária Évora e Bana)
- “Lamento d’um Emigrante” (Morna – Hino de homenagem à diáspora)
- “Camin de Maderalzim” (Coladeira – Um hino de exaltação ao Carnaval do Mindelo)
- “Tudo Tem Se Limite” (Morna)
- “Apocalipse” (Coladeira)
Prémios e Distinções
- Homenagem Nacional: Condecorado em 1997 pela Presidência da República de Cabo Verde pelo seu valioso contributo à cultura nacional.
- Festival da Baía das Gatas (2003): Edição inteiramente dedicada a homenagear a sua obra e percurso.
- Coração de Poeta (2019): Lançamento do aclamado documentário “Manuel d’Novas – Coração de Poeta”, realizado pelo seu filho Neu Lopes, celebrando a sua vida.





