Falar de Dany Silva é viajar pelas pontes invisíveis, mas indeléveis, que unem Cabo Verde a Portugal e ao mundo. Nascido na Cidade da Praia, na ilha de Santiago, e radicado em terras portuguesas desde a década de 1960, Dany Silva não é apenas um músico, cantor e compositor: ele é um verdadeiro arquiteto cultural, um pioneiro que ajudou a moldar a identidade da música lusófona contemporânea.

De Agrónomo a Mestre da Lusofonia: A Transição de Uma Vida
A relação de Dany Silva com a arte vem de berço. Filho de quem trazia na ponta dos dedos a tradição do violão vinda da ilha da Boa Vista, cresceu embalado pela sonoridade da sua terra natal antes de cruzar o oceano.
No entanto, o seu destino inicial apontava para um caminho completamente diferente. Dany Silva viajou para Portugal para prosseguir estudos superiores em engenharia agrária/agronomia na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém. O plano era formar-se e trabalhar a terra, mas a força da música acabou por falar mais alto. O jovem que veio para cultivar campos agrícolas acabou por semear e colher alguns dos maiores clássicos do património musical lusófono.
Rapidamente integrou a vibrante cena musical da época, passando por projetos pioneiros como Os Charruos e o Quinteto Académico+2. Contudo, foi a solo e através de projetos como o inconfundível Bandássanhá que Dany começou a redefinir os contornos da nossa memória coletiva. Temas como “Feel Good” (1979) e o icónico single “Branco Velho, Tinto e Jeropiga” (1981) abriram portas para uma fusão colorida e inovadora.

ao lado de Nancy Vieira
O marco maior da sua discografia consolidou-se em 1986 com o lançamento do álbum “Lua Vagabunda”, contando com colaborações de peso como a de Rui Veloso, perpetuando hinos intemporais como “Banhada”. Seguiram-se obras de referência como “Sodadi Funaná” (1991) e o aclamado “Caminho Longi” (2008), culminando na celebração maior dos seus 40 anos de carreira com o álbum “Canções da Minha Vida” (2018).
“Mais do que cantar a saudade, Dany Silva transformou a nostalgia num ponto de encontro entre culturas, ritmo e celebração.”
O Guardião da Noite e da Cultura em Lisboa
Para além dos palcos e dos estúdios registados no Catálogo Fonográfico da Fundação GDA, o impacto de Dany Silva estende-se à própria pulsação urbana de Lisboa. Entre meados e o final dos anos 80, esteve à frente de espaços míticos de agitação cultural cabo-verdiana na capital portuguesa — como o Clave de Tó, o Clave di Nôs e o Pilon.
Estes locais funcionavam muito para além de simples casas de espetáculo: eram verdadeiros pontos de encontro da diáspora, embaixadas informais da morabeza onde músicos, poetas e pensadores partilhavam vivências, criavam sinergias e matavam as saudades da pátria (sodadi).
Reconhecimento Institucional: A Medalha de Mérito Cultural
A dimensão artística de Dany Silva e o seu contributo para a capital portuguesa foram oficialmente consagrados pela autarquia de Lisboa. No âmbito do ciclo e espetáculo “Morabeza em Lisboa”, promovido pela Câmara Municipal no Teatro Capitólio, Dany Silva foi distinguido com a prestigiada Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Lisboa, entregue diretamente pelo presidente da autarquia, Carlos Moedas.
Esta homenagem institucional sublinha o papel de Dany Silva como uma figura incontornável na difusão da arte cabo-verdiana e na construção de uma Lisboa genuinamente intercultural e cosmopolita.
Celebrar Dany Silva é, por isso, reconhecer um artista cuja influência se estende transversalmente às novas gerações de criadores. É aplaudir uma carreira construída com alma, talento e uma inesgotável entrega à arte de bem receber e de unir continentes através da canção.
As Músicas que Consagraram Dany Silva
🎵 “Branco Velho, Tinto e Jeropiga” (1981) — A celebração festiva que se tornou um clássico instantâneo na música lusófona.
🎵 “Lua Vagabunda” (1986) — O álbum e tema icónico que selou a amizade e parceria com Rui Veloso.
🎵 “Criola de S. Vicente” — A pura demonstração de sensibilidade, balanço e alma cabo-verdiana.
Fonte:@catalogo-fonografico.fundacaogda.pt @dw
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files





