A história cultural de Cabo Verde e a construção da sua identidade no pós-independência não podem ser contadas sem reservar um capítulo central a Carlos Alberto Lopes Barbosa, eternizado no coração do povo como Kaká Barbosa. Nascido acidentalmente em São Vicente no ano de 1947 — devido ao trabalho do pai como agente policial — e criado nas terras ribeirinhas de Santa Catarina, na ilha de Santiago, Kaká Barbosa personificou a ponte perfeita entre a vivência rural do arquipélago, a sensibilidade poética e a consciência revolucionária que moldou a nação. Quando partiu a 1 de maio de 2020, exatamente no dia em que completava 70 anos de idade, o país não perdeu apenas um artista; despediu-se de um dos seus mais lúcidos guardiões.

A trajetória de Kaká Barbosa confunde-se com a própria afirmação da cabo-verdianidade. Muito antes de a questão linguística dominar os debates académicos, o jovem marinheiro mercantil que percorria a Europa nos anos 70 começou a escrever poesia em crioulo. Sem ainda ter lido os clássicos da literatura nacional, Kaká escreveu por puro instinto umbilical, dando origem a obras fundacionais como Vinti Xintido Letrado na Kriolu. A sua escrita literária — que mais tarde se desdobraria em contos e prosas em português publicados sob a sua assinatura ou pelo pseudónimo Albely Bakar — tinha a capacidade única de extrair o fantástico da dureza do chão da realidade, comparando-se pela mestria narrativa ao realismo do francês Guy de Maupassant.
No universo musical, a sua contribuição foi visceral e profundamente inovadora. Inconformado com a ideia de ser apenas mais um compositor de mornas ou coladeiras, Kaká Barbosa procurou experimentar e fundir ritmos, sendo o criador do “funanbá”, uma simbiose rítmica singular entre o funaná, o semba e a rumba. As suas composições tornaram-se hinos da música de intervenção, abordando o trabalho dos camponeses, a luta pela liberdade, a independência e a transição democrática dos anos 90. Canções da sua autoria, como Kôr di Fodjada, Dimokransa ou Txon di massa pé, foram imortalizadas por formações lendárias e vozes marcantes, desde os grupos Os Tubarões, Bulimundo e Simentera até à interpretação de Mayra Andrade.
Além do homem das artes, Kaká Barbosa foi um cidadão total. Combatente da Liberdade da Pátria, pioneiro do movimento sindical no país a partir de 1976, deputado da Assembleia Nacional, cofundador da Sociedade de Autores Cabo-Verdianos (SOCA) e membro da Academia Cabo-Verdiana de Letras, dedicou cada etapa da sua vida a institucionalizar e proteger os criadores da sua terra. Recompensado em vida com a Medalha do Vulcão e a Medalha de Mérito, o seu maior prémio continuará a ser a permanência da sua voz. Como referiu o linguista e escritor Manuel Veiga aquando da sua passagem, Kaká Barbosa não morreu; mudou-se para a dimensão imaterial das suas palavras e melodias, onde continuará a ensinar às futuras gerações o valor do chão, da língua e do orgulho cabo-verdiano.
Fonte: @VOA Português @Museu Virtual Cabo Verde & A Sua Música.
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files



