A história da música de Cabo Verde, em especial do funaná, cruza-se com a vida de Sema Lopi. Como um dos pioneiros que semearam o que hoje conhecemos e enche festivais, a sua arte fez parte de um movimento que serviu como forma de revolta e bateu firme contra o colonialismo. Ao lado de nomes como Codé di Dona, Simão Tavares Lopes (1940–2013) foi um dos grandes mestres do funaná tradicional, tocado apenas com gaita e ferrinho. Nascido na Ribeira Seca, no concelho de Santa Cruz, Sema Lopi fez da música um espelho da sua vida simples e do trabalho na terra.
Aprendeu a Tocar no Longe e na Dificuldade
A vida de Sema Lopi foi marcada pelo trabalho duro e pelas secas que afetaram o arquipélago. Ainda menino, cantava enquanto guardava o gado pelas montanhas de Santa Cruz. Aos 17 anos, para fugir à fome, teve de emigrar para São Tomé e Príncipe para trabalhar numa fábrica de óleo.
Foi longe de casa que começou a sua ligação com a gaita. Como não tinha dinheiro para comprar um instrumento, alugava a gaita velha de um amigo ao fim de semana por 20 escudos. Sozinho e sem professor, aproveitava esses dias para aprender a tocar.
Quando voltou a Santiago, em 1961, começou a tocar nos bailes das aldeias e tornou-se uma figura muito querida nas festas da sua zona.
Músicas Famosas em Vozes Alheias
Durante muitos anos, o funaná foi uma música discriminada e tocada quase só no meio rural. No final dos anos 1970, quando grupos como o Bulimundo começaram a usar guitarras elétricas e a levar o funaná para os grandes palcos, foram buscar inspiração às canções dos tocadores tradicionais.
Aconteceu então algo muito comum na altura: as músicas de Sema Lopi tornaram-se sucessos nacionais e internacionais, mas sem o seu nome nos discos. A sua composição mais conhecida — com o famoso verso “Ôi, Séma Lópi, côrpu dí tchõ, álma dí Crístu” — foi gravada por vários artistas e por vezes identificada apenas como “música popular”.
Enquanto a sua criação corria o mundo, Sema Lopi continuava a sua vida humilde na Ribeira Seca, dividindo o tempo entre a gaita, a agricultura quando chovia e o trabalho nas obras públicas. Só em 1998 gravou o seu primeiro e único disco em nome próprio, chamado Cabra Preta.

Cantor, Compositor & Instrumentista
(1940-2013)
As Datas Mais Importantes
- 1940: Nasce na Ribeira Seca, no concelho de Santa Cruz.
- Finais dos anos 50: Vai trabalhar para São Tomé e aprende a tocar gaita.
- 1961: Regressa a Santiago e anima festas e bailes locais.
- Anos 70 e 80: As suas músicas são gravadas por vários grupos de renome.
- 1995: Viaja até aos Estados Unidos para tocar num festival em Washington.
- 1998: Lança o seu CD Cabra Preta e toca na Expo 98, em Lisboa.
- Maio de 2013: É homenageado em Santa Cruz, que dá o seu nome à Escola de Música local.
- 19 de Junho de 2013: Falece na Praia, aos 72 anos.
Uma Herança que Fica para Sempre
A música de Sema Lopi tinha um ritmo mais calmo e pesado do que o funaná mais rápido que se toca hoje nas festas. Mesmo assim, a sua simplicidade e verdade levaram-no a palcos internacionais em Portugal e nos Estados Unidos.
Pouco antes de morrer em 2013, viu o seu trabalho reconhecido pelo seu próprio povo em Santa Cruz, onde a Escola de Música e o Centro Cultural ganharam o seu nome. Hoje, Sema Lopi é lembrado como uma das raízes mais puras da cultura cabo-verdiana: um homem simples que ajudou a guardar a memória e a alma do funaná.



