Quinze anos após a sua partida, Cesária Évora continua a recusar o silêncio. O anúncio do lançamento de Reina da Morna, agendado para outubro, é um reencontro profundo com a verdade de uma artista que nunca precisou de artifícios para avassalar o mundo. Integrado nas comemorações do 15.º aniversário da morte da Diva dos Pés Descalços, este trabalho marca também o primeiro lançamento extraído dos arquivos da Lusafrica desde a sua aquisição pela Sony Music França, garantindo que o legado insular continue a ecoar à escala planetária.
Longe de ser uma compilação de sobras descartadas, este álbum resgata gravações raras de estúdio realizadas entre as décadas de 1990 e 2000. Trata-se da era dourada de Cesária — a fase em que deu vida a obras-primas como Miss Perfumado ou Cabo Verde —, devolvendo-nos a sua voz no momento mais pleno, maduro e cristalino da sua carreira internacional, onde a morna e a coladera surgem entrelaçadas nas palavras e composições de mestres incontornáveis como B. Leza, Manuel de Novas e Eugénio Tavares.
A grande relevância deste projeto reside na liderança de quem esteve lá desde o primeiro segundo. As faixas foram cuidadosamente identificadas, reunidas e trabalhadas por José da Silva, produtor de longa data de Cesária e o verdadeiro arquiteto da sua projeção global. Numa indústria onde o património de grandes nomes tantas vezes se perde em gavetas esquecidas ou burocracias de direitos, este rigoroso trabalho de curadoria demonstra um respeito exemplar pela memória cultural de Cabo Verde. É a prova de que o arquivo quando bem tratado não é cinza, mas sim matéria viva capaz de completar um puzzle que muitos julgavam já encerrado.

Cesária Évora(1941_2011)
“Reina da Morna” reafirma a continuidade de um diálogo que nunca se interrompeu. Cia partiu em 2011, mas a sua interpretação crua da sodade, do exílio e do amor permanece como a espinha dorsal da nossa identidade. Ao trazer à luz estas canções guardadas, o projeto oferece às novas gerações — que nunca vivenciaram o lançamento de um disco da cantora em tempo real — a oportunidade inédita de escutar algo novo da Rainha como se o tempo não tivesse passado. Mais do que guardar a história, este lançamento prova que o baú de Cesária Évora ainda tinha tesouros fundamentais para entregar ao mundo.





