Fotografia de Betú. Fonte: Cabo Verde & a Música – Museu Virtual. Crédito e direitos de utilização a confirmar.
Adalberto Higino Tavares Silva: o homem por trás das 52 composições
Quando se fala da música cabo-verdiana, alguns nomes aparecem imediatamente associados à voz, à interpretação e à história da morna.
Mas por trás de muitas dessas vozes existem compositores.
Um deles é Adalberto Higino Tavares Silva, conhecido artisticamente como Betú.
Natural da ilha do Maio, Betú construiu, ao longo de mais de cinco décadas, uma obra que ultrapassou fronteiras geográficas, gerações de intérpretes e diferentes momentos da música cabo-verdiana.
O seu nome está associado a algumas das mais conhecidas composições interpretadas por artistas como Ildo Lobo, Cesária Évora, Os Tubarões, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Tété Alhinho, Fantcha, Mirri Lobo e Lucibela, entre muitos outros.
Mas há uma obra que, por si só, coloca Betú numa posição singular na história de Cabo Verde:
“Cântico da Liberdade”, o Hino Nacional da República de Cabo Verde.
A letra é de Amílcar Spencer Lopes, enquanto a música foi composta por Betú.
Do Maio para o mundo
A ilha do Maio ocupa um lugar especial na história de Betú.
Não apenas porque é a sua terra natal, mas porque o Maio aparece repetidamente na sua criação musical.
É possível encontrar essa ligação em títulos como:
- Gana di Voâ
- Maio Nha Terra
- Nha Berço
- Ilha de Las Mayaes
- Cadjitinha
- Terra di Sol
A relação entre Betú e o Maio é, portanto, muito mais profunda do que uma simples referência biográfica.
A ilha aparece como memória, identidade, inspiração e sentimento de pertença.
Em julho de 2024, essa ligação recebeu uma homenagem pública particularmente simbólica: foi inaugurada uma silhueta de Betú na Avenida Amílcar Cabral, no Maio. Na ocasião, o Governo de Cabo Verde destacou a importância do compositor para a cultura cabo-verdiana e para a valorização da morna. Governo de Cabo Verde — homenagem a Betú no Maio
Um compositor desde muito jovem
A história musical de Betú começou cedo.
Entre as suas primeiras composições encontra-se “Gana di Voâ”, associada à década de 1970.
É uma história particularmente interessante porque a composição permaneceu durante décadas sem uma gravação que concretizasse plenamente o desejo do compositor.
A obra nasceu quando Betú ainda era jovem, mas atravessou décadas até encontrar uma nova oportunidade de chegar ao público.
Em 2026, Piduca gravou “Gana di Voâ”, dando uma nova vida a uma composição criada muitas décadas antes.
É um episódio que resume uma das características mais interessantes da obra de Betú:
as suas músicas não ficam presas ao período em que foram escritas.
Elas podem esperar anos — ou décadas — até encontrar uma nova voz.
Os anos 1970: onde tudo começou
A década de 1970 marca o início do catálogo conhecido de Betú.
É nesse período que aparecem várias das primeiras composições:
Estas obras pertencem à fase inicial do catálogo. Para consultar a cronologia completa, as gravações e os intérpretes de cada tema, veja o catálogo das 52 composições de Betú.
Algumas dessas obras só seriam gravadas anos mais tarde.
“Manú”, por exemplo, foi gravada pelos Os Tubarões em 1980, antes de receber posteriormente novas interpretações.
A documentação da UNESCO sobre a morna também identifica Betú entre os compositores relevantes da tradição musical cabo-verdiana e regista várias das suas obras. UNESCO — Morna, prática musical de Cabo Verde
Os Tubarões e a entrada no grande repertório cabo-verdiano
A gravação de algumas das primeiras composições de Betú pelos Os Tubarões foi determinante.
O grupo ocupava uma posição central na música cabo-verdiana e ajudou a levar o repertório de vários compositores para um público muito mais amplo.
“Manú” e “Rasposta” estão entre os exemplos dessa primeira fase.
A partir daí, a obra de Betú começaria a ganhar uma característica que se tornaria uma das suas marcas:
ser interpretada por diferentes artistas.
Uma música podia nascer no Maio ou na Praia, ser gravada por um grupo em Cabo Verde e, anos depois, reaparecer na voz de um artista da diáspora.
Betú e Ildo Lobo: uma ligação fundamental
Se existe um intérprete que ocupa um lugar especial na história da obra de Betú, é Ildo Lobo.
O levantamento das composições indica 12 obras de Betú gravadas por Ildo Lobo, fazendo dele o intérprete mais representativo do catálogo.
Entre essas obras estão:
- Lucy
- Estudante
- Nha Berço
- Notícia
- Dor di Nha Alma
- Cusas di Coraçon
- Nha Sêgrede
- Tema Cu Bô
- Nôs Amizade
O Museu Virtual Cabo Verde & a Música destaca precisamente a importância de Ildo Lobo na divulgação das composições de Betú. Cabo Verde & a Música — Betú
A relação entre os dois ajuda a explicar por que determinadas músicas de Betú se tornaram tão conhecidas.
O compositor criava.
Ildo Lobo interpretava.
E o público guardava.
A voz de Cesária Évora
Outro capítulo fundamental é a ligação com Cesária Évora.
A obra de Betú chegou à voz da cantora que se tornou uma das maiores referências internacionais da música cabo-verdiana.
Entre as composições associadas a Cesária estão:
- Djarmai di Meu
- Milca ti Lídia
- Amor e Mar
- Noiva di Céu
- É Nôs Cabo Verde — gravação indicada como não publicada no levantamento.
A presença de Cesária Évora no catálogo demonstra que a obra de Betú não ficou limitada ao circuito nacional.
As suas composições passaram a fazer parte do repertório de artistas com projeção internacional.
Uma obra que atravessa gerações
Talvez seja esta a característica mais importante de Betú.
A sua obra não pertence a uma única geração.
Depois dos Os Tubarões e de Ildo Lobo, vieram outras vozes.
Mayra Andrade gravou “Nha Nobréza” e “Lembrança”.
Nancy Vieira interpretou “Manú”, “Marina”, “Lembrança” e “Praia Maria”.
Fantcha gravou “Nha Coraçon II”, “Maio Nha Terra” e “Bejo”.
Mirri Lobo interpretou “Denúncia”, “Salvâ Nha Criola”, “Nôs Fé” e “Fidjo Fêmea”.
Lucibela levou “Laço Umbilical” a uma nova geração.
E mais recentemente, outras interpretações continuam a aparecer.
Essa sucessão de intérpretes revela algo essencial:
Betú não é apenas um compositor de uma época.
É um compositor cuja obra continua a encontrar novas vozes.
O compositor do Hino Nacional
Entre as 52 composições do levantamento existe uma obra que ocupa um lugar completamente diferente.
“Cântico da Liberdade”
O Hino Nacional de Cabo Verde.
A letra foi escrita por Amílcar Spencer Lopes, enquanto a música é de Adalberto Silva Betú.
A composição foi adotada como Hino Nacional em 1996 e posteriormente integrada na Constituição da República na revisão constitucional de 1999.
É difícil encontrar uma forma mais forte de participação na memória coletiva de um país.
Milhões de cabo-verdianos já ouviram a melodia de Betú.
Em escolas.
Em cerimónias oficiais.
Em eventos desportivos.
Em momentos nacionais.
Em Cabo Verde.
E na diáspora.
A obra de Betú deixou, portanto, de pertencer apenas ao mundo da música.
Passou a fazer parte da identidade nacional.
O reconhecimento através dos anos
A trajetória de Betú também pode ser acompanhada através dos prémios recebidos pelas suas composições.
Entre os destaques estão:
“Maio Nha Terra”
Prémio B.Leza — Melhor Composição do Ano, 1989.
“Nôs Fé”
Melhor Compositor — CVMA 2012.
“Laço Umbilical”
Troféu Morna — CVMA 2019.
“Praia Maria”
Música Tradicional do Ano — CVMA 2025, na interpretação de Nancy Vieira.
O último caso é particularmente significativo.
“Praia Maria” foi composta em 2017.
Nancy Vieira gravou-a e publicou-a em 2024.
Em 2025, a música foi distinguida nos CVMA.
Uma composição relativamente recente voltou, assim, a colocar o nome de Betú no centro da música cabo-verdiana contemporânea.
Betú continua presente
É importante fazer uma distinção.
Este não é um texto sobre um compositor cuja obra pertence apenas ao passado.
Betú está vivo.
E a sua obra continua a ser divulgada, gravada, reinterpretada e estudada.
As novas gravações demonstram precisamente isso.
Em 2026, “Gana di Voâ”, uma composição dos seus primeiros anos, encontrou uma nova interpretação através de Piduca.
Uma obra antiga ganhou uma voz nova.
Esse fenómeno resume talvez melhor do que qualquer estatística a importância do compositor.
A música de Betú continua a circular.
52 composições — e uma história ainda aberta
O levantamento que serve de base a este arquivo reúne:
52 temas no total
4 composições em parceria
45 temas gravados/publicados
28 intérpretes diferentes
E, entre esses intérpretes, destaca-se Ildo Lobo, associado a 12 composições.
Mas estes números não devem ser vistos como um ponto final.
O catálogo continua a merecer investigação.
Existem gravações que podem não estar disponíveis na internet.
Existem versões cuja data precisa de confirmação.
Existem obras que podem ter sido interpretadas em concertos ou gravações que ainda não foram devidamente documentadas.
E podem surgir novas gravações.
Por isso, o arquivo do Cabo Verde Files deve ser encarado como um documento vivo, aberto a novas informações e correções documentais.
Mais do que compositor
Reduzir Betú ao número de músicas seria insuficiente.
A sua história cruza diferentes momentos da música cabo-verdiana.
Cruza o Maio e a Praia.
Cruza Cabo Verde e a diáspora.
Cruza Os Tubarões, Ildo Lobo, Cesária Évora, Mayra Andrade, Nancy Vieira e novas gerações de intérpretes.
Cruza a morna tradicional com novas formas de interpretação.
E cruza a criação artística com a própria identidade nacional através do Cântico da Liberdade.
Por isso, quando se fala das 52 composições de Betú, não estamos simplesmente perante uma lista de títulos.
Estamos perante um percurso de mais de cinco décadas da música cabo-verdiana.
E é essa história que este arquivo pretende preservar.
Ouça o Hino Nacional de Cabo Verde
Escute “Cântico da Liberdade”, o Hino Nacional de Cabo Verde, cuja música foi composta por Betú.





