O firmamento da música cabo-verdiana perdeu uma das suas cordas mais expressivas. Osvaldo Marcos Dias, eternizado no meio artístico pelo nome Vaiss, faleceu no dia 3 de janeiro de 2025, em Lisboa, aos 60 anos, vítima de doença prolongada. Mas, antes da sua partida, escreveu com o seu violão páginas inesquecíveis da nossa história cultural,deixando para trás uma herança de virtuosismo, humildade e uma paixão inabalável pela identidade das ilhas.

Nascido em 1965 no concelho de Ribeira Grande, na ilha de Santo Antão, Vaiss cresceu e desenvolveu a sua sensibilidade musical em São Vicente. A sua arte rapidamente cruzou horizontes: em 1988, a convite do lendário Bana, rumou a Lisboa para se radicar e consolidar a carreira como guitarrista e instrumentista de excelência.
Em Portugal, tornou-se figura incontornável da mítica casa de concertos B.Léza e um dos pilares do núcleo musical cabo-verdiano na Diáspora. O seu violão expressivo e versátil esteve no centro de momentos históricos da música lusófona:
Na banda de suporte de Cesária Évora
Músico de palco e estúdio na digressão mundial do seminal álbum Miss Perfumado.
Companheiro das maiores vozes do arquipélago
Integrou projetos e colaborou com Ildo Lobo, Celina Pereira,Nancy Vieira, Biús, Sara Tavares, Lura, Dany Silva, Tito Paris, Hermínia e Maria Alice.
Pontes com a Lusofonia e além
A sua versatilidade levou-o a dividir palcos e estúdios com referências internacionais, como Rui Veloso, Caetano Veloso, Filipe Mukenga, Custódio Castelo e o grupo Navegante.
Mestre de Músicos e Mão Produtora
Vaiss, além de um virtuoso do violão e multi-instrumentista, foi também um formador generoso. Na sua vertente de ensino informal e mentoria, foi responsável por dar os primeiros passos e guiar na guitarra artistas proeminentes da cena cabo-verdiana, como Zé Delgado, que expressou a sua eterna gratidão ao reconhecer que a sua própria carreira teve os primeiros acordes ensinados por Vaiss.
Além do trabalho de acompanhamento, deixou registos em nome próprio — com os discos Sodade cá bô fronta’n (1991),Assim, assim?… (1997) e Betty Mar (2011) — demonstrando a sua capacidade como cantor, compositor e arranjador.
Em 2015, o seu apurado sentido estético valeu-lhe o prémio de Melhor Produtor Musical nos Cabo Verde Music Awards (CVMA) pelo trabalho no álbum Panu Terra, de Rui Cruz.
Um Testemunho de Luz e Humildade
Mais do que o talento que fascinava os estúdios e os palcos, os amigos e colegas recordam a serenidade e a humildade de Vaiss. Descrito pelo Centro Cultural de Cabo Verde (CCCV) como uma “estrela que brilhará junto das maiores que já partiram”, Vaiss deixa a memória viva de quem guardou e dignificou a tradição sonora cabo-verdiana sem nunca perder a simplicidade.





