Há figuras que não apenas registam a história de um país, mas esculpem a sua própria identidade cultural e social. Eugénio de Paula Tavares (1867–1930) é a figura cimeira dessa construção na história do arquipélago. Nascido na Ilha Brava e amadurecido no Porto Grande de São Vicente — que o próprio considerava a sua grande universidade —, Tavares transformou-se no intérprete maior do sentir cabo-verdiano ao longo de três décadas de intensa criação artística e intervenção social.
O Vanguarda da Língua Materna
Numa época em que o português erudito era a única linguagem legitimada pelas estruturas coloniais e pelas elites intelectuais, Eugénio Tavares teve a intuição e a coragem de erguer o crioulo cabo-verdiano ao estatuto de linguagem literária de excelência.
Dignificação Cultural
Elevou a língua nativa ao universo da poesia e da dramaturgia (com obras pioneiras como a peça Manidjas), provando que o idioma do povo possuía a riqueza e a densidade necessárias para expressar as emoções mais profundas da condição humana.
O “Camões de Cabo Verde”
Intitulado pelo poeta e ex-embaixador Corsino Fortes como o Camões de Cabo Verde, Eugénio fixou os alicerces do lirismo insular, dando ao arquipélago uma voz poética própria e inconfundível.
O Pai da Morna e o Cantor da Sodade
Se a morna é hoje Património Imaterial da Humanidade, o feito deve-se, em grande medida, ao génio musical e poético de Eugénio Tavares. Ele aperfeiçoou a estrutura poética e melódica da morna tradicional da Brava, imortalizando-a enquanto expressão suprema da alma insular.
Hora di bai,
Hora di dor,
Ja’n q’ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que ‘n ta lembrâ
Ma’n q’ré
Ficâ ‘n morrê!
Hora di bai,
Hora di dor!
Amor,
Dixa’n chorâ!
Corpo catibo,
Bá bo que é escrabo!
Ó alma bibo,
Quem que al lebabo?
Se bem é doce,
Bai é maguado;
Mas, se ca bado,
Ca ta birado!
Se no morrê
Na despedida,
Nhor Des na volta
Dixam chorâ
Destino de home:
Es dor
Que ca tem nome:
Dor de crecheu,
Dor de sodade
De alguém
Que ‘n q’ré, que q’rem…
Dixam chorâ
Destino de home,
Oh Dor
Que ca tem nome!
Sofrí na vista
Se tem certeza,
Morrê na ausencia,
Na bo tristeza!

Com a imortal Hora di Bai, Tavares traduziu o drama existencial da emigração, a dor das despedidas no cais e a melancolia do mar. Transformou o sentimento da sodade num traço de união universal entre os cabo-verdianos da diáspora e os que permaneciam nas ilhas.
A Pena Combativa e a Visão de Futuro
O feito de Eugénio Tavares ultrapassou largamente o domínio das artes. Enquanto jornalista e intelectual público, assumiu uma postura destemida de crítica à incúria colonial, à justiça desigual e às dramáticas crises de fome que assolavam o arquipélago, com especial incidência na ilha de Santiago.
Essa voz incómoda acabou por lhe custar a perseguição política e o exílio nos Estados Unidos, mas nem a distância travou o seu combate:
No Exílio (New Bedford, 1900)
Fundou o jornal A Alvorada, um marco na imprensa da emigração. Foi nessas páginas que Tavares desenhou e expressou publicamente o sonho de uma autonomia para Cabo Verde — uma visão arrojada que se tornaria realidade 75 anos mais tarde com a independência nacional.
De Regresso às Ilhas (Praia, 1911–1916)
Através de A Voz de Cabo Verde, consagrou a sua reputação como o “Príncipe dos jornalistas cabo-verdianos”, usando a imprensa para exigir fraternidade, progresso e reformas sociais urgentes para a sua terra.
O Legado do Mestre da Brava
Eugénio Tavares não se limitou a escrever versos ou a compor melodias; ele ofereceu ao povo cabo-verdiano a sua própria consciência nacional. Unindo a beleza da língua nativa ao combate social pela dignidade do seu povo, o seu legado permanece vivo em cada morna cantada e em cada reflexão sobre o destino das ilhas.

Capa do N.º 1 da Revista de Espiritualismo (Junho de 1939). Eugénio Tavares foi a figura de abertura escolhida pela Federação Espírita Portuguesa para inaugurar esta publicação, que homenageou o poeta cabo-verdiano com a sua imagem e uma nota biográfica de destaque, evidenciando a sua forte ligação à doutrina espiritualista.





