Há uma ironia profunda na forma como a história da música escolhe os seus heróis. Recentemente, Cabo Verde despediu-se de Domingos Pascoal Fernandes — o Mestre Pascoal —, um Capitão na reforma que passou os seus últimos anos de vida numa missão militarmente disciplinada: garantir que o cordofone mais antigo, frágil e misterioso do arquipélago não desaparecesse da face da Terra.

Falar do legado de Mestre Pascoal é, obrigatoriamente, falar da sobrevivência da cimboa.
O Único Cordofone Puramente Africano
Num país onde a identidade musical foi fortemente moldada pela miscigenação e pela introdução de instrumentos europeus — como o violão, o clarinete ou o cavaquinho —, a cimboa permanece como um monumento estético isolado. Ela é considerada o único instrumento de corda sobrevivente em Cabo Verde que mantém uma raiz puramente africana, trazida diretamente nos porões dos navios negreiros durante o tráfico de escravizados.
Historicamente, a cimboa ficou encurralada num gueto cultural. Por produzir uma sonoridade de baixo volume, o instrumento foi empurrado para a função exclusiva de marcar o ritmo e guiar os cânticos das mulheres no Batuque da Ilha de Santiago. Quando o colonialismo tentou proibir o batuque, a cimboa quase foi arrastada para o abismo da extinção, sobrevivendo durante décadas apenas como uma peça exótica e empoeirada nas prateleiras dos museus.

Património Cultural Imaterial de Salvaguarda Urgente[2022]






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