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O Rapaz que Desafiou São Tomé por uma Gaita: A Saga de Bitori Nha Bibinha

Redação Cabo Verde Files Há 4 meses(Última atualização:Há 4 meses) 4 minutos lidos 95 visualizações
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Falar de Vitório Tavares, ou simplesmente Bitori Nha Bibinha, é falar do funaná puro, sem filtros. Nascido em 1938 em Milho Branco [São Domingos], ele é muito mais do que um sobrevivente: é o homem que segurou as pontas da nossa música tradicional quando o estilo era visto de lado, e que acabou a dar espetáculo pelo mundo fora quando muitos pensavam que já era hora de descansar.

Fugir para as roças de São Tomé por amor à gaita

A vida de Bitori dava um filme. Sem nunca ter ido à escola, ele apaixonou-se pela gaita de boca ainda miúdo, mas o que ele queria mesmo era o acordeão diatónico — a famosa gaita. Só que em Santiago, naquela altura, comprar uma gaita era quase impossível para quem não tinha posses.

Aos 17 anos, Bitori teve uma daquelas ideias malucas de miúdo: meteu na cabeça que ia para São Tomé e Príncipe juntar dinheiro. Como era menor, falsificou a idade na certidão de nascimento, fugiu sem a mãe saber e embarcou. Lá nas roças trabalhou no duro: capinou a terra, cortou cabelo aos companheiros e subiu a palmeiras perigosas para colher dendê. Valeu a pena. Juntou 750 escudos, comprou a gaita e regressou a Cabo Verde no final dos anos 50. Para sustentar a casa na Praia, trabalhou anos como pedreiro, tocando o seu fole sempre que podia.

O mestre que inspirou os Ferro Gaita

Bitori nunca foi de cantar, o negócio dele sempre foi fazer a gaita falar. Músicas como “Tra Chapéu”, “Mó na mama” e “Cabalo” tornaram-se autênticos hinos do funaná de ferro e gaita.

Para percebermos a importância dele: nos anos 90, quando o funaná tradicional parecia estar a perder força para os ritmos eletrónicos, foi Bitori quem deu a mão aos mais novos. O Iduíno, líder dos Ferro Gaita, aprendeu a tocar precisamente com as lições e a paciência de Bitori lá na Achadinha.

A grande reviravolta internacional só chegou em 2016. A editora Analog Africa descobriu o disco que ele tinha gravado em 1998 com o Chando Graciosa e decidiu relançá-lo com o título “Legend of Funaná”. Com quase 80 anos, Bitori viu-se de repente a viajar pelo mundo e a tocar em festivais enormes na Europa, como o Roskilde e o Womex. Quem diria?

O presente: Alunos, Kankan e o sonho de cantar Mornas

Hoje, quem vai à casa do mestre na Achadinha encontra um homem cheio de vida. Ele continua a ensinar os mais novos a tocar (embora agora cobre 5 mil escudos adiantados para não levar calotes). Além disso, a casa dele é muito conhecida por outra tradição: o fabrico e a venda de kankan (rapé artesanal), que atrai sempre muita gente do bairro.

Mas o mestre recusa-se a ficar parado no tempo. Conhecido pelo ritmo rápido do funaná, Bitori surpreendeu há pouco tempo ao dizer que o seu grande sonho agora é gravar um álbum de mornas e coladeiras, mostrando o que vale na guitarra e no violão antes de se despedir dos palcos. O projeto já foi apresentado ao Ministério da Cultura e o mestre só espera pelos apoios para avançar.

Bitori Nha Bibinha é a prova de que a nossa cultura é dura de roer. Ele trouxe o ritmo das roças de São Tomé, animou as festas de Santiago e pôs a Europa a dançar. Uma lenda viva que continua a dar o ritmo a Cabo Verde.

Fica com este clássico interpretada pelo Chando Graciosa com o mestre Bitori na gaita:


Fonte:@inforpress @caboverdeamusica

Edição e Adaptação: Cabo Verde Files


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About The Author

Redação Cabo Verde Files

Redação Cabo Verde Files

Profissional de referência na comunicação social cabo-verdiana, conta com um percurso consolidado na cobertura dos principais acontecimentos que moldam as ilhas e a Diáspora. A sua trajetória reflete um compromisso constante com o rigor, a ética e a pluralidade de informação.Ao longo da carreira, integrou redações de prestigiados órgãos de informação nacionais, destacando-se na imprensa escrita, na rádio e na televisão. O seu trabalho abrange a análise da atualidade política, económica e social, além de dar um forte destaque à promoção da rica identidade cultural do arquipélago.Reconhecido pelos seus pares e pelo público pela isenção e capacidade de escuta, o seu contributo estende-se também ao debate sobre a liberdade de imprensa e o desenvolvimento do jornalismo na Lusofonia. Atualmente, mantém uma presença ativa no setor, inspirando as novas gerações de comunicadores no país.

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