A passagem de testemunho da música mais antiga de Cabo Verde.
Nas terras altas de São Lourenço dos Órgãos, onde as montanhas parecem catedrais naturais, o ar guarda o eco de um instrumento quase esquecido. Mestre Pascoal é um dos últimos guardiões da Cimboa, uma relíquia de cabaça e crina de cavalo. Descubra como uma tarde de tempestade mudou a vida de um jovem digital e salvou uma tradição secular.
A Oficina do Som Antigo
Nas terras altas de São Lourenço dos Órgãos, onde as montanhas de rocha escura parecem erguer-se como catedrais naturais esculpidas pela erosão, o ar tem o cheiro a terra molhada e a madeira cortada. Era ali que ficava a oficina de Mestre Pascoal. O espaço era pequeno, com o teto baixo feito de telha e cana, mas guardava tesouros que o dinheiro moderno já não conseguia comprar: cabaças secas de todos os tamanhos, pedaços de madeira de mogno calejados pelo tempo e mechas de crine de cavalo penduradas nas vigas.
Pascoal, aos oitenta e dois anos, era um dos últimos homens na Ilha de Santiago que sabia como construir e tocar uma Cimboa. O instrumento, com o seu corpo feito de uma cabaça oca, um braço de madeira reto e uma única corda esticada, parecia uma relíquia de um tempo esquecido. Para muitos jovens da Praia, a Cimboa era apenas uma peça de museu; para Pascoal, era a voz viva dos primeiros homens que cultivaram aquelas ribeiras.
“A Cimboa não canta como o violão ou o violino”, dizia o mestre, enquanto polia a superfície de uma cabaça com uma folha seca. “O som dela é um lamento, um sussurro que vem de trás, do tempo em que o nosso povo só tinha a voz e a madeira para deitar a dor fora. Se deixarmos esta corda rebentar para sempre, esquecemos quem somos.”
O Jovem e o Ecrã
O seu neto, Danilo, de dezasseis anos, passava as férias na aldeia por insistência da mãe. Inicialmente, o rapaz olhava para a oficina do avô com o teto de palha como um castigo. Passava as horas encostado ao embondeiro do quintal, com os olhos colados ao ecrã do telemóvel, a ver os vídeos de música moderna que vinham de fora. O som áspero e monocórdico que o avô tirava da Cimboa parecia-lhe estranho, distante da sua realidade digital.
Tudo mudou numa tarde de tempestade. Um trovão violento ecoou pelas montanhas e a eletricidade da aldeia falhou, mergulhando a casa numa penumbra densa. Sem bateria no telemóvel e sem sinal de rede, Danilo viu-se sem o seu refúgio habitual. Atraído pela luz de uma vela que piscava na oficina, o rapaz aproximou-se e sentou-se num banco de madeira num canto do espaço.
Mestre Pascoal não disse nada. Sabia que a curiosidade não se força, cultiva-se. Pegou numa Cimboa que tinha acabado de montar e começou a passar o arco de crine de cavalo sobre a corda única. O som ecoou na oficina escura: uma nota longa, chorada, que parecia imitar o sopro do vento que batia nas portadas da janela.
A Lição da Cabaça e do Fio
À medida que as mãos calejadas do avô moviam o arco, a melodia começou a ganhar um ritmo escondido, um compasso telúrico que fez Danilo largar o aparelho eletrónico inútil sobre a mesa de trabalho. O som entrava pelo peito com uma força física. O rapaz fechou os olhos e, pela primeira vez, conseguiu ver a beleza naquela simplicidade: não era apenas música, era a própria história da ilha traduzida num fio.
“Queres experimentar?”, perguntou o avô, estendendo o instrumento com um sorriso discreto que iluminou o seu rosto enrugado.
Danilo hesitou, mas aceitou o desafio. Pousou a cabaça no colo, exatamente como tinha visto o avô fazer, e segurou o braço de madeira. Quando passou o arco pela corda, o som saiu desafinado, um guincho agudo que o fez corar de vergonha.
“A Cimboa precisa de paciência, Danilo”, aconselhou Mestre Pascoal, cobrindo a mão do neto com a sua mão pesada. “Não apertes demasiado os dedos. Tens de sentir a vibração da madeira na tua própria pele. A corda só canta quando tu relaxas o pulso.”
Com a orientação do avô, Danilo tentou novamente. Desta vez, a nota saiu limpa, um som grave e aveludado que pareceu preencher os cantos da oficina. O rapaz sentiu uma descarga de orgulho que nenhum jogo digital alguma vez lhe tinha proporcionado. Ele tinha conseguido fazer falar o instrumento dos antigos.
O Novo Eco do Vale
O resto das férias de Danilo já não foi passado à sombra do embondeiro com o ecrã na mão. Todos os dias, o rapaz sentava-se ao lado de Mestre Pascoal, aprendendo a escolher as melhores cabaças, a esticar o crine de cavalo com a tensão exata e a memorizar as melodias que nunca tinham sido escritas em partituras, mas que sobreviviam na memória do avô.
Quando o final do verão chegou e Danilo teve de regressar à escola na Praia, ele não levou apenas as suas roupas na mala. Levava consigo uma Cimboa construída pelas suas próprias mãos, sob o olhar atento do mestre.
No seu primeiro dia de aulas, quando os colegas lhe perguntaram o que tinha feito nas férias, Danilo não mostrou fotografias no telemóvel. Tirou o instrumento de cabaça da bolsa de lona e começou a tocar uma melodia antiga no meio do pátio da escola. O som, raro e poderoso, fez os outros alunos pararem para ouvir em silêncio absoluto. O segredo da Cimboa tinha saltado das montanhas de Santiago para o coração da nova geração, garantindo que a música mais antiga da ilha continuaria a voar bem alto.
💡 Ficha Técnica e Curiosidades
- A Cimboa: É um instrumento musical tradicional de corda friccionada, originário da Ilha de Santiago. A sua estrutura é feita a partir de uma cabaça (que serve de caixa de ressonância), um braço de madeira de pinho ou mogno, e uma única corda feita de crine de cavalo, tocada com um arco também de crine e madeira.
- Preservação e Declínio: A Cimboa esteve em vias de extinção total durante a segunda metade do século XX, com muito poucos artesãos capazes de a fabricar. Graças ao esforço de mestres artesãos tradicionais e de projetos de escolas de música locais, o fabrico e o ensino do instrumento têm sido revitalizados nas últimas décadas.
- São Lourenço dos Órgãos: Esta localidade no interior da Ilha de Santiago é conhecida pelas suas impressionantes formações rochosas pontiagudas (os “Órgãos”) e pelo seu forte pendor agrícola e florestal, sendo um reduto importante da cultura popular e do artesanato cabo-verdiano.
A Cimboa é a voz mais antiga de Santiago, um fio que nos liga aos antepassados. Para que esta corda nunca se quebre, compreender a língua em que ela chora é o segredo.
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