Há figuras históricas que adoram estar debaixo dos holofotes e há outras que preferem o trabalho silencioso de organização, logística e liderança nos momentos mais difíceis. Aristides Maria Pereira (1923–2011) foi claramente desse segundo grupo.
Foi o primeiro Presidente da República de Cabo Verde, liderando o país durante 16 anos, entre 1975 e 1991. A sua vida mistura-se diretamente com a história da independência da nossa terra.
Uma infância simples e o despertar político
Aristides nasceu a 17 de novembro de 1923, no Fundo das Figueiras, na ilha da Boa Vista. Era o 14.º filho de um ex-padre e de uma mãe camponesa que trabalhou duro para conseguir educar a família numerosa.
Para continuar os estudos, teve de ir para o liceu na ilha de São Vicente. Foi lá que conheceu o Major Matias dos Santos, um deportado político português que morava na mesma casa que ele. Esse major abriu-lhe os olhos para a realidade do colonialismo, dizendo-lhe algo que o marcou para sempre:
«Nós somos de Cabo Verde, somos Africanos. A ideia de que somos portugueses é uma mentira.»

A vida em Bissau e a revolta contra a injustiça
Em 1948, por falta de oportunidades em Cabo Verde, Aristides emigrou para a Guiné-Bissau para trabalhar nos Correios.
Se em Cabo Verde o domínio colonial se sentia pelo abandono do povo, em Bissau a discriminação era direta e diária. Às seis da tarde, tocava um apito que obrigava todos os trabalhadores africanos a sair do centro da cidade e a voltar para as suas aldeias (tabancas). Ver esta injustiça de perto aproximou os jovens cabo-verdianos e guineenses e deu-lhes a certeza de que era preciso lutar contra o sistema colonial.

O trabalho com Amílcar Cabral e o início da luta
Aristides tornou-se o braço direito e o grande gestor ao lado de Amílcar Cabral. Enquanto Cabral pensava na estratégia global e discursava para o mundo, Aristides resolvia os problemas práticos do dia a dia:
Trabalhar numa varanda: Nos anos 60, o secretariado do PAIGC em Conakry funcionava na varanda de um pequeno apartamento T2, onde viviam 14 pessoas.
Levar armas em sacos de viagem: Quando as armas oferecidas pela Checoslováquia ficaram bloqueadas pela burocracia local, Aristides e os seus companheiros conseguiram ajuda em Marrocos e transportaram pistolas e fardas escondidas em malas de mão em voos comerciais normais.
Unir forças em África: Ajudou a criar a CONCP, uma aliança diplomática que juntava os movimentos de libertação de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola (MPLA) e Moçambique (FRELIMO).
O drama de 1973 e a chegada à Presidência
A 20 de janeiro de 1973, aconteceu a grande tragédia: Amílcar Cabral foi assassinado em Conakry. Na mesma noite, Aristides Pereira foi espancado, amarrado e fechado no porão de um barco. Foi salvo à última hora por um navio soviético e enviado com urgência para Moscovo para receber tratamento médico.
Mesmo muito debilitado, voltou assim que pôde para evitar que o partido ruísse. Com a morte de Cabral, Aristides assumiu a liderança do PAIGC e guiou o movimento até à independência:
Reorganizou o partido depois do choque do assassinato;
Conduziu o processo que proclamou a independência da Guiné-Bissau em 1973;
Preparou o caminho para a independência de Cabo Verde a 5 de julho de 1975, tornando-se o primeiro Presidente do país, cargo que ocupou até 1991.

O valor da nossa história
Aristides Pereira faleceu a 22 de setembro de 2011, em Coimbra, deixando um legado gigantesco que lhe rendeu algumas das maiores condecorações do Estado português, como a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada.
Nos seus últimos anos de vida, fez questão de lembrar que Cabo Verde precisa de cuidar da sua memória e contar a sua própria história, usando um famoso provérbio africano:
«Quando morre um velho em África, é como se queimasse uma biblioteca.»
Fonte: @Buala
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files





