Da travessia nas roças à resistência na Amadora, a fundadora das Batukaderas Bandeirinha Panafrikanista mostra como a cultura ancestral cura a dor e une a comunidade na diáspora.
Há trajetórias que se escrevem com tinta no papel; a de Ilda Vaz escreve-se no couro da txabeta, no eco da voz e na resiliência inabalável de quem recusou deixar-se vergar pelas injustiças da vida. Natural de Cabo Verde, com uma infância marcada pelas roças de São Tomé e Príncipe e radicada em Portugal desde a década de 1990, Ilda transformou memórias dolorosas e episódios quotidianos de discriminação num movimento de afirmação cultural e comunitária no Bairro da Boba, na Amadora.

A travessia e o livro de vida cantado
A memória de Ilda recua aos seus três anos de idade, quando enfrentou a travessia atlântica a bordo daquilo que recorda como um “barco da escravatura”, rumo ao trabalho forçado nas roças são-tomenses. Cresceu a testemunhar o sofrimento da mãe na colheita do cacau e as marcas do preconceito que moldaram o seu olhar sobre o mundo. Sem ter tido a oportunidade de frequentar a escola na infância, aprendeu a ler sozinha já em adulta e encontrou na composição oral a sua verdadeira biblioteca.
Como a própria costuma sintetizar com mestria:
“Como não estudei, a única forma de fazer um livro é a cantar.”
Transmutar a dor em arte: O nascimento de “Áfrika”
Já em Portugal, dividindo-se entre o trabalho doméstico e de limpeza, Ilda foi confrontada com novos episódios de preconceito. O momento de rutura deu-se numa farmácia onde trabalhava: após sofrer ofensas racistas de um cliente, foi mandada recolher à cave pela entidade patronal para “não perturbar” o agressor.
Enquanto engolia as lágrimas no silêncio do subsolo, secou a humilhação ao compor mentalmente as linhas daquela que viria a ser a sua estreia discográfica: o single “Áfrika”. A agressão virou hino de coragem e apelo à unidade.
Bandeirinha Panafrikanista Di Lisboa: Cura no Bairro da Boba
Depois de integrar outros coletivos na Amadora, Ilda fundou em 2016 o seu próprio grupo: as Batukaderas Bandeirinha Panafrikanista Di Lisboa. Todos os sábados, mais de uma dezena de mulheres reúnem-se no Bairro da Boba para cantar, tocar e partilhar a vida.
Mais do que um ensaio musical, o espaço converteu-se num refúgio contra a depressão e o isolamento que afetam muitas mulheres migrantes, provando que a tradição ancestral é também uma ferramenta de saúde mental e solidariedade comunitária. Com temas lançados nas plataformas digitais (como “Áfrika” e “Mãe é para sempre”), o grupo tem levado a sua mensagem a palcos e celebrações pela cidade.
A essência da tradição e o papel da mulher na diáspora
Presente em iniciativas de valorização do património — como as comemorações do Dia Nacional do Batuque promovidas pelo Centro Cultural de Cabo Verde —, Ilda defende com firmeza a responsabilidade das mulheres na preservação desta herança. Embora aberta a novas experiências, lembra que a alma do batuque reside na pureza da voz e no ritmo da txabeta:
“Modernidade a mais já não é batuque. Nós herdamos esta tradição e temos a responsabilidade de preservá-la.”
A vitória do palco
Entre as rotinas de trabalho exigentes e os cuidados familiares, Ilda encontra na música a sua verdadeira libertação. Cada atuação é uma celebração da dignidade restaurada.
“O palco é a minha vida. Quando estou no palco, nasço de novo.”
Fonte:@afrolink @newinamadora @inforpress
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files



