Tudo o que a história hoje sabe sobre Margarida Mendes Varela — a famosa Nha Gida Mendi (ca. 1897–1991) — não veio de registos em cartórios, jornais ou documentos oficiais. A sua biografia inteira existe porque ela própria a cantou. Numa altura em que a palavra falada era a única biblioteca do povo de Santiago, esta mulher nascida no interior de Santa Cruz fez do finason o diário vivo da sua vida e da sua ilha.
Nha Gida Mendi nunca andou na escola nem aprendeu a ler ou a escrever. A sua poesia e a sua filosofia nasciam no momento em que cantava, direto da memória e do improviso. Enquanto o batuque ditava o ritmo no terreiro, a sua voz contava o quotidiano do povo: as secas terríveis, o sofrimento da emigração forçada para as roças de São Tomé, a injustiça dos donos das terras e a força das mulheres camponesas.

_existem poucos registos fotográficos de Gida Mendi_
No tempo em que o poder colonial português e as elites olhavam para o batuque com preconceito, tentando travá-lo como algo “atrasado”, manter essa tradição viva era um ato de coragem. Nha Gida Mendi recuzou-se a calar a sua cultura.
Ao longo de 93 anos de vida, atravessou três grandes momentos políticos na mesma terra: viu o fim da Monarquia portuguesa, viveu as décadas duras do colonialismo e celebrou com alegria a Independência de Cabo Verde em 1975. A sua voz, tantas vezes perseguida, acabou por durar mais do que qualquer governo.
Mas a história reservava-lhe uma coincidência marcante. Nha Gida Mendi morreu em janeiro de 1991, na Praia, exatamente três dias antes das primeiras eleições livres e democráticas do país. A mulher que cantou a mudança da Monarquia para o Colonialismo e da Libertação para a Independência partiu no momento preciso em que Cabo Verde se preparava para votar pela primeira vez em democracia.
Pouco tempo antes de falecer, a sua sabedoria foi gravada e passada para o papel pelo investigador Tomé Varela da Silva no livro Ña Gida Mendi – Simenti di onti na tchon di mañan (“Semente de ontem no chão de amanhã”). Pela primeira vez, os seus versos em crioulo ganharam forma escrita para que não se perdessem no tempo.
Nha Gida Mendi não gravou discos em estúdios estrangeiros nem fez digressões pelo mundo. A sua verdadeira herança foi outra: garantir que a memória, a força da palavra e a alma mais profunda da cultura cabo-verdiana continuassem bem vivas para as gerações de hoje.

Ña Gida Mendi – Simenti di onti na tchon di mañan- Obra de Tomé Varela da Silva, editada em 1990 pelo Instituto Cabo-verdiano do Livro (Praia). Escrito em língua cabo-verdiana, o livro reúne traços biográficos de Ña Gida Mendi, o registo da sua tradição oral e cantigas, acompanhados de uma análise da sua herança musical.
Fonte: @caboverdeamusica
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files




