Antes de a palavra ser escrita no papel ou gravada num microfone de estúdio, o finaçon já era a grande crônica social de Santiago. Princezito cresceu nessa escola de improviso e escuta atenta, mas a sua viagem não parou no terreiro. Da infância de instrumentos inventados à imersão afro-cubana em Havana, o percurso de Carlos Alberto Sousa Mendes é um mapa de inquietação artística. O autor de Spiga desconstrói o mito do conservadorismo cultural, analisa o gênio da Geração Pantera, aponta o dedo às falhas da indústria em Cabo Verde e explica por que juntar o seu finaçon ao rap de MC Acondize não é uma rutura — é apenas a mesma nota a ressoar numa nova frequência.

A Semente no Tarrafal: Do Rabenda às Latas de Banha
Antes de ser uma figura central da música cabo-verdiana contemporânea, Carlos Alberto era apenas um rapaz em Monte Iria, no Tarrafal. Crescer no mesmo caminho por onde Nha Bibinha Kabral passava diariamente a comercializar revelou-se determinante. Fascínio puro e escuta atenta levaram-no a praticar o rabenda — o ato de imitar e repetir o canto e a oratória da lendária cantadeira de finaçon.
Sem saber que absorvia uma arte secular de improviso poético e filosofia pública, Princezito aprendeu a manusear as palavras na sua fonte mais pura. Paralelamente, num ambiente de carência de meios materiais, a criatividade impôs-se: as primeiras guitarras eram construídas com latas de banha de porco e fios, e a bateria improvisada com latas de azeite de diferentes tamanhos.
A par da música, a palavra escrita ganhou dignidade bem cedo. Incentivado pelo irmão mais velho, Mário Lúcio — poeta, músico e sua “primeira biblioteca” —, Princezito aprendeu a escrever aos seis anos, tanto em português como em crioulo, desafiando a menorização da língua materna no período pós-colonial.
A Descoberta Rítmica: “Aprendi a ser africano em Cuba”
Nos anos 90, Princezito viveu oito anos em Cuba para se formar como técnico de laboratório — profissão que nunca exerceria, mas cuja estada transformaria radicalmente a sua mundividência. É da sua vivência em Havana e Santiago de Cuba que surge uma das suas frases mais marcantes: “Aprendi a ser africano em Cuba”.
Longe de ser uma afirmação simplista, a experiência cubana deu-lhe acesso a uma dimensão de África que a insularidade e a história específica de Cabo Verde não lhe tinham proporcionado com a mesma intensidade. Em Cuba, contactou com as religiões de matriz africana, o candomblé, os orixás e mais de vinte tipos de tambores.
Ao mergulhar na riqueza rítmica afro-cubana, Princezito encontrou a peça percussiva que faltava no seu ecossistema sonoro (onde o batuku tradicional assentava na txabeta sobre almofadas de couro), regressando ao arquipélago com novos arranjos e uma visão expandida para a música de Santiago.
A Geração Pantera e o Sucesso de “Lua”
O regresso a Cabo Verde culminou na sua estreia profissional em fevereiro de 1999, na Praia. Pouco depois, Princezito juntou-se a Orlando Pantera, Tcheka, Vadú e Djingo no coletivo Ayan!. Este grupo, que ficaria conhecido como a Geração Pantera, protagonizou uma verdadeira revolução estética: retirar o batuku e o finaçon dos terreiros comunitários e levá-los aos grandes palcos, fundindo a matriz rítmica tradicional com a guitarra e arranjos afro-contemporâneos.
Foi nesse período que apresentou “Lua”, um tema nascido de um momento de dor que viria a ganhar dimensão internacional ao ser interpretado por Mayra Andrade (ganhando a medalha de ouro no Festival da Francofonia) e gravado por Lura. Anos mais tarde, em 2008, o seu álbum a solo Spiga selaria este percurso de investigação profunda sobre a melopeia e o finaçon.
O Featuring com MC Acondize: Quando o Finaçon Encontra o Rap
Longe de se fechar numa visão museológica da tradição, Princezito surpreendeu muitos dos seus ouvintes ao unir forças com o jovem representante do movimento urbano, MC Acondize, no tema “Sima Bo”. No entanto, para quem conhece a génese da música de Santiago, o featuring não é um desvio, mas sim um regresso a casa.
Princezito desmistifica o choque geracional e demonstra que o finaçon e o rap bebem exatamente da mesma água:
A Arte da Palavra: O finaçon que aprendeu no Tarrafal e o rap do mundo digital partilham o improviso, o ritmo como estrutura e a palavra afiada como crônica da realidade social.
O Terreiro Moderno: O ambiente de estúdio onde MC Acondize grava é apenas a versão contemporânea dos terreiros de antigamente.
Frequência Partilhada: “A nota que o MC Acondize faz é a mesma nota que eu faço. Já estamos unidos por isso”, afirma Princezito, sublinhando que a serenidade e a clareza de objetivos do jovem rapper o impressionaram desde o primeiro momento.
O Diagnóstico Crítico: A Urgência de Profissionalizar a Cultura
Apesar da riqueza criativa de Cabo Verde, Princezito faz um diagnóstico duro sobre a fragilidade estrutural do setor no país. Aponta a sobrecarga de funções acumuladas pelos criadores: num ecossistema sem indústrias criativas consolidadas, exige-se que o músico seja simultaneamente autor, intérprete, produtor, gestor, contabilista e promotor.
Esta acumulação burocrática retira ao artista o seu bem mais precioso: o tempo e a disponibilidade mental para criar. O artista defende uma clara divisão de papéis e estruturas profissionais de suporte, para que a energia dos criadores cabo-verdianos não se esgote na burocracia.

Entre a escuta demorada de uma nota ao piano, a memória viva de Nha Bibinha Kabral e as rimas do rap contemporâneo, Princezito continua a usar a tradição não como um museu, mas como uma bússola. A sua trajetória e o seu olhar sobre as novas gerações provam que a cultura de Santiago permanece viva, aberta e em constante renovação.
Fonte: Entrevista extraída da BANTUMEN
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files



