Há uma ironia profunda na forma como a história da música escolhe os seus heróis. Recentemente, Cabo Verde despediu-se de Domingos Pascoal Fernandes — o Mestre Pascoal —, um Capitão na reforma que passou os seus últimos anos de vida numa missão militarmente disciplinada: garantir que o cordofone mais antigo, frágil e misterioso do arquipélago não desaparecesse da face da Terra.

Falar do legado de Mestre Pascoal é, obrigatoriamente, falar da sobrevivência da cimboa.
O Único Cordofone Puramente Africano
Num país onde a identidade musical foi fortemente moldada pela miscigenação e pela introdução de instrumentos europeus — como o violão, o clarinete ou o cavaquinho —, a cimboa permanece como um monumento estético isolado. Ela é considerada o único instrumento de corda sobrevivente em Cabo Verde que mantém uma raiz puramente africana, trazida diretamente nos porões dos navios negreiros durante o tráfico de escravizados.
Historicamente, a cimboa ficou encurralada num gueto cultural. Por produzir uma sonoridade de baixo volume, o instrumento foi empurrado para a função exclusiva de marcar o ritmo e guiar os cânticos das mulheres no Batuque da Ilha de Santiago. Quando o colonialismo tentou proibir o batuque, a cimboa quase foi arrastada para o abismo da extinção, sobrevivendo durante décadas apenas como uma peça exótica e empoeirada nas prateleiras dos museus.

Património Cultural Imaterial de Salvaguarda Urgente[2022]
A Mecânica “Digital” de um Instrumento Sensível
Foi contra este esquecimento que Mestre Pascoal se insurgiu. Em entrevistas marcantes ao jornal Expresso das Ilhas, o artesão e músico tentava traduzir para a modernidade a complexidade deste instrumento feito de cabaça seca e pele de cabra. O Mestre definia a cimboa de uma forma surpreendente: “Apesar de ser muito antigo, é digital”.
Esta definição não era um capricho moderno, mas sim uma explicação técnica da mecânica do instrumento:
A Ausência de Trastes: Ao contrário de uma guitarra ou de um violino, onde o músico pressiona a corda firmemente contra o braço de madeira para isolar uma nota, na cimboa a corda única fica suspensa no ar.
A Leveza do Toque: Para alterar o tom, o músico não esmaga a corda. O som muda milimetricamente através da aproximação e da sensibilidade do roçar dos dedos (os dígitos). É um toque de precisão microscópica.
Por ser um instrumento monocórdico tão sensível e, nas palavras do próprio Mestre, “teimoso” de se aprender, a cimboa enfrentou a resistência de uma geração mais jovem que, habituada ao imediatismo tecnológico, raramente tinha a paciência ancestral necessária para domesticar a sua técnica.
Rompendo as Barreiras do Preconceito
O grande feito do Mestre não foi apenas construir cimboas, mas provar que o instrumento tinha futuro fora do folclore estático. Pascoal Fernandes levou a cabo uma verdadeira revolução harmónica. Para espanto da sociedade santiaguense, levou a cimboa para dentro da Paróquia de São Tolentino numa Missa de Natal, provando que o instrumento conseguia acompanhar guitarras e teclados em partituras modernas.
Ele demonstrou na prática que a cimboa, se devidamente amplificada e respeitada na sua acústica, podia dialogar de igual para igual com a morna, a coladeira, o fado e até o jazz.
“O turista que vem para Cabo Verde não vem para ver o que lá deixou, mas vem aqui para ver o que só aqui existe.” — Mestre Pascoal
Esta máxima do Mestre sintetiza a urgência da valorização da cimboa. O país não precisava de mimetizar os palcos internacionais; the verdadeiro luxo cultural e o elemento diferenciador de Cabo Verde residiam na exclusividade daquele som telúrico e rústico que só aquelas ilhas sabiam produzir.
O Testamento Resgatado
O esforço deu frutos institucionais. Em outubro de 2022, o Governo de Cabo Verde elevou oficialmente a cimboa à categoria de Património Cultural Imaterial de Salvaguarda Urgente.
Embora Mestre Pascoal tenha partido recentemente, a verdade é que o seu trabalho garantiu que a cimboa não fosse enterrada com ele. O instrumento ficou inscrito nos currículos de formação de escolas secundárias, ganhou estatuto de proteção legal e, acima de tudo, deixou a sua marca gravada em estúdio num disco contemporâneo que o Mestre preparou antes de falecer.
A cimboa continua viva. Cada vez que uma mão jovem se aproximar, com leveza “digital”, daquela corda esticada sobre a cabaça, a teimosia da história e o espírito de Pascoal Fernandes continuarão a ressoar no vento de Santiago.