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O forno humano do Tarrafal: A história da “Frigideira” que o regime tentou apagar

Redação Cabo Verde Files Há 3 semanas(Última atualização:Há 1 mês) 3 minutos lidos 31 visualizações
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Durante décadas, a cela mais temida do antigo Campo de Concentração do Tarrafal existiu apenas na memória dolorosa dos sobreviventes e em relatórios amarelados pelo tempo. Sabia-se da sua existência, mas o chão onde se erguia permaneceu em silêncio durante quase um século. Antes de fechar a primeira fase do “Campo da Morte Lenta”, o próprio regime colonial tratou de demolir e soterrar a “Frigideira” para apagar qualquer prova física da sua barbárie.

O resgate arqueológico veio provar que a história não se apaga. A identificação dos vestígios materiais desta estrutura trouxe de volta à luz do dia os detalhes de um dos dispositivos de tortura mais brutais do século XX e deu uma nova dimensão à memória da resistência.

O local, conhecido como “Campo da Morte Lenta” foi uma prisão política estabelecida pelo regime colonial para aprisionar opositores da ditadura em Portugal e, mais tarde, combatentes das lutas de libertação de Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. A “Frigideira” era uma das suas celas de castigo mais temidas.

Curiosidades sobre a “Frigideira” do Tarrafal


Uma resposta à fuga de 1937

A cela de castigo não constava na planta original do campo. Foi erguida apressadamente na sequência de uma tentativa de fuga coletiva a 2 de agosto de 1937, para funcionar como o nível máximo de repressão e controlo disciplinar sobre os presos políticos.

Microclima extremo de 50 °C

Consistia num pequeno bloco de cimento (cerca de 7 por 3,5 metros) sem janelas nem ventilação. Sob o sol inclemente de Santiago, as temperaturas no interior atingiam facilmente os 50 °C. Ali, os detidos ficavam isolados entre 10 a 60 dias, sobrevivendo a pão e pouca água (frequentemente servida em latas de combustível).

A transição para a “Holandinha”

Na segunda fase do campo (a partir de 1962, direcionada aos combatentes da libertação nacional de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde), a “Frigideira” original deu lugar a uma nova estrutura de isolamento que recebeu o nome popular de “Holandinha” — uma alusão irónica à forte emigração cabo-verdiana para a Holanda na época.

A tentativa frustrada de apagar os crimes

Consciente da gravidade dos atos cometidos e da pressão internacional pós-Segunda Guerra Mundial, a administração colonial mandou demolir a “Frigideira” na década de 1950. A intenção era “limpar” a imagem do recinto. No entanto, o cruzamento da memória oral dos ex-prisioneiros com a investigação arqueológica permitiu localizar com precisão milimétrica o que o Estado Novo tentou esconder.

O trunfo decisivo para a UNESCO

A confirmação e escavação das fundações da “Frigideira Maior” entregaram ao Museu da Resistência do Tarrafal a evidência material irrefutável do que ali se passou. Para a candidatura a Património Mundial da UNESCO, que exige critérios rigorosos de autenticidade e integridade, este achado converte a memória contada em prova histórica tangível.


Fonte: @vozdoarchipelago

Edição e Adaptação: Cabo Verde Files


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Redação Cabo Verde Files

Redação Cabo Verde Files

Profissional de referência na comunicação social cabo-verdiana, conta com um percurso consolidado na cobertura dos principais acontecimentos que moldam as ilhas e a Diáspora. A sua trajetória reflete um compromisso constante com o rigor, a ética e a pluralidade de informação.Ao longo da carreira, integrou redações de prestigiados órgãos de informação nacionais, destacando-se na imprensa escrita, na rádio e na televisão. O seu trabalho abrange a análise da atualidade política, económica e social, além de dar um forte destaque à promoção da rica identidade cultural do arquipélago.Reconhecido pelos seus pares e pelo público pela isenção e capacidade de escuta, o seu contributo estende-se também ao debate sobre a liberdade de imprensa e o desenvolvimento do jornalismo na Lusofonia. Atualmente, mantém uma presença ativa no setor, inspirando as novas gerações de comunicadores no país.

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