Durante décadas, a cela mais temida do antigo Campo de Concentração do Tarrafal existiu apenas na memória dolorosa dos sobreviventes e em relatórios amarelados pelo tempo. Sabia-se da sua existência, mas o chão onde se erguia permaneceu em silêncio durante quase um século. Antes de fechar a primeira fase do “Campo da Morte Lenta”, o próprio regime colonial tratou de demolir e soterrar a “Frigideira” para apagar qualquer prova física da sua barbárie.
O resgate arqueológico veio provar que a história não se apaga. A identificação dos vestígios materiais desta estrutura trouxe de volta à luz do dia os detalhes de um dos dispositivos de tortura mais brutais do século XX e deu uma nova dimensão à memória da resistência.

Curiosidades sobre a “Frigideira” do Tarrafal
Uma resposta à fuga de 1937
A cela de castigo não constava na planta original do campo. Foi erguida apressadamente na sequência de uma tentativa de fuga coletiva a 2 de agosto de 1937, para funcionar como o nível máximo de repressão e controlo disciplinar sobre os presos políticos.
Microclima extremo de 50 °C
Consistia num pequeno bloco de cimento (cerca de 7 por 3,5 metros) sem janelas nem ventilação. Sob o sol inclemente de Santiago, as temperaturas no interior atingiam facilmente os 50 °C. Ali, os detidos ficavam isolados entre 10 a 60 dias, sobrevivendo a pão e pouca água (frequentemente servida em latas de combustível).
A transição para a “Holandinha”
Na segunda fase do campo (a partir de 1962, direcionada aos combatentes da libertação nacional de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde), a “Frigideira” original deu lugar a uma nova estrutura de isolamento que recebeu o nome popular de “Holandinha” — uma alusão irónica à forte emigração cabo-verdiana para a Holanda na época.
A tentativa frustrada de apagar os crimes
Consciente da gravidade dos atos cometidos e da pressão internacional pós-Segunda Guerra Mundial, a administração colonial mandou demolir a “Frigideira” na década de 1950. A intenção era “limpar” a imagem do recinto. No entanto, o cruzamento da memória oral dos ex-prisioneiros com a investigação arqueológica permitiu localizar com precisão milimétrica o que o Estado Novo tentou esconder.
O trunfo decisivo para a UNESCO
A confirmação e escavação das fundações da “Frigideira Maior” entregaram ao Museu da Resistência do Tarrafal a evidência material irrefutável do que ali se passou. Para a candidatura a Património Mundial da UNESCO, que exige critérios rigorosos de autenticidade e integridade, este achado converte a memória contada em prova histórica tangível.
Fonte: @vozdoarchipelago
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files




