A trajetória de Tó Tavares (Augusto Fortes Tavares) coloca-se exatamente no ponto de encontro entre o festejo de um legado incontornável e o alerta urgente sobre os rumos da identidade artística nacional. Celebrado ontem no Centro Cultural Português, na Praia, numa iniciativa protagonizada por antigos alunos e figuras ligadas à cultura para assinalar as suas quatro décadas dedicadas à música e à formação de novas gerações, o fundador da mítica escola Pentagrama consolida-se não apenas como um pilar da história musical de Cabo Verde, mas também como um visionário profundamente atento aos desafios do futuro da nossa tradição.

conhecido como “Tó Tavares” 🇨🇻
Curiosidades e Contrastes: Os 40 Anos de Tó Tavares e o Alerta do Baú
Estudar música… às escondidas
Natural da ilha do Maio, Tó Tavares deu os primeiros passos nos estudos musicais entre 1981 e 1985 de forma clandestina em relação à própria família. Os pais não podiam saber que ele se dedicava a essa arte — um início bem distante do mestre respeitado e formador de gerações em que viria a transformar-se.
O “berço” de grandes vozes
Pela escola Pentagrama passaram alguns dos nomes maiores da música cabo-verdiana contemporânea que hoje conquistam palcos internacionais. Foi ali que artistas como Mayra Andrade,Lúcia Cardoso, Sandra Horta e Sara Alhinho deram os primeiros acordes e se iniciaram no universo musical.
O ouvido absoluto que virou profissão oficial
Além de tocar e ensinar, Tó Tavares especializou-se como afinador de pianos. Começou por fazê-lo inteiramente de ouvido, mas aperfeiçoou e formalizou a técnica através de uma formação especializada realizada com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal.
Cantar o “baú” vs. a crise de novos compositores Num tom de sincero sobressalto cultural, o músico tem alertado publicamente que a música tradicional cabo-verdiana (como a morna e a coladeira) corre sérios riscos de declínio. O cerne da questão, segundo o artista, é que a nova geração canta apenas o repertório guardado no “baú”,enquanto os grandes compositores tradicionais de referência (como Tito Paris, Nhela Spencer ou Betu) deixaram de produzir com regularidade e enfrentam um vazio de sucessores diretos na escrita tradicional.
A inspiração além-fronteiras e o exemplo do Fado Curiosamente, a reflexão sobre a salvaguarda da identidade cabo-verdiana ganhou forte eco durante a estreia do Festival de Fado em Cabo Verde. Ao assistir à atuação da jovem fadista portuguesa Teresinha Landeiro, Tó Tavares viu ali o reflexo exato do que deseja para os jovens cabo-verdianos: uma juventude que assume com naturalidade e orgulho a herança e a tradição dos mais velhos,atualizando-a sem perder a matriz de raiz.





