A história da nossa música pós-independência é quase sempre contada através das grandes vozes que viajaram pelo mundo. Mas raramente paramos para olhar para os autores que criaram essas obras. Fulgêncio Tavares — conhecido por todos como Ano Nobo — foi o verdadeiro homem dos sete ofícios da nossa cultura. Ele foi um criador versátil que, através da língua cabo-verdiana, conseguiu traduzir a forma de viver e de sentir do povo no período pós-independência.

[aos 71 anos]
A Expressão do Pós-Independência
Se o país precisava de alguém que desse voz à sua nova realidade, Ano Nobo assumiu esse papel com destaque. As suas composições capturaram a essência da sociedade da época, tornando-se referências marcantes na história recente de Cabo Verde. Prova disso é que as suas músicas estiveram presentes em momentos de grande importância nacional: desde a tomada de posse do primeiro Presidente da República, Aristides Pereira, em 1975, até à receção oficial ao Papa João Paulo II, em 1990. Ano Nobo cantou o quotidiano e, dessa forma, acompanhou os passos do próprio país.
O Quintal “Bom Jardim”
Para além das suas mais de 400 composições, Ano Nobo marcou gerações pelo seu papel prático como professor e pedagogo. O músico Manuel d’Candinho recorda-o como um “íman” que atraía toda a juventude de São Domingos, transformando a zona num berço musical. Esse ensinamento acontecia num local muito específico: no quintal da sua própria residência, um espaço batizado de “Bom Jardim”. Ali, antigos pupilos como Kalú di Guida e o seu filho Epifânio (“Fany”) aprenderam os primeiros acordes. Mais do que formar artistas, os seus alunos recordam que Ano Nobo transmitia valores para que tivessem uma boa conduta na sociedade.
Um Artista de Múltiplos Talentos
Olhar para Ano Nobo apenas através da morna deixa de fora a sua verdadeira dimensão artística. Ele era um multi-instrumentista completo, dominando cordas, sopro e teclas. A sua criatividade passava por géneros como a coladeira, o samba, o merengue e até o batuco — uma faceta em que era menos conhecido. Além disso, escreveu doze peças de teatro, tendo ganho o prémio “Teatro Vivo” em 1998 com a peça Julgamento de Totó Montero. A riqueza da sua obra ultrapassou de tal forma as fronteiras do país e as suas composições foram ensinadas em universidades nos Estados Unidos da América.
O Reconhecimento de um Legado
A importância de Ano Nobo para a cultura de Cabo Verde ficou marcada tanto pelo reconhecimento do Estado, que o condecorou com a Medalha do Vulcão, como pela gratidão eterna dos seus antigos alunos e da comunidade de Lém-Pereira, terra onde chegou a ceder terrenos seus para ajudar quem precisava. Faleceu como um símbolo de paz em 2004, mas a sua herança musical — gravada por dezenas de intérpretes em todo o mundo — continua a ser celebrada como um pilar fundamental da identidade cabo-verdiana.
Entre as composições de maior sucesso do Ano Nobo estão os temas “Adelaide”, “Linda”, “Lolinha”, “Falsia di Tanha”, “Ta PingaTchapo-Tchapo”, “Baíno”, “Ressana Godim” ou “Camarada Pépé Lope“.
Fonte:@governocv @inforpress @caboverdeamusica
Edição e Adaptação: Cabo Verde Files